sexta-feira, setembro 12, 1997

Carta a Íris Jacomino

Querida Íris.

Estou aqui, sentado e quieto no meu gabinete, descansando os pés sobre a mesa de trabalho, depois de um dia extremamente agitado e tumultuado. Imagine a cena: o Sr. Registrador, de paletó e gravata, com os pés descalços sobre a mesa, cuidando de esmiuçar diligentemente a caixinha de charutos que acolhe lembranças, caracóis, pedrinhas da Serra da Canastra, mapas, estrelas, ventos e cartas antigas, muitas cartas e fotos.

O agito da semana não foi suficiente para eliminar você da minha caixinha de atenções. Nunca é. Ultimamente a tenho resgatado da minha caixinha de charutos. Quantos detalhes encontro, espalhados de forma desorganizada. São nossas fotos, CDs, cartas e uma saudade inenarrável! A saudade eu a tenho ali, cuidadosamente assentada num dos cantos da caixinha. Vez por outra se manifesta e a sua voz é como uma melodia de uma flauta antiga, que não sei se me acalma ou entristece.

Ainda agora, repassando os olhos sobre todas essas coisas (que permanecem “aqui do meu ladinho”, como um claro sinal do vínculo que nos une) ainda agora, como dizia, fiquei extremamente emocionado com as palavras ternas e amorosas que me dedicou no encarte do CD de Alanis Morissette: “fico feliz por ter conhecido meu pai”.

O que mais pode querer um pai? O que pode neste mundo ultrapassar o amor expresso em palavras tão ternas?

Ainda recentemente, alguém me lembrou que há poucas coisas na vida, pouquíssimas mesmo, que valem a pena tanto quanto o amor das pessoas que amamos. Um gesto delicado, uma palavra suave, uma intenção – quanto valor espiritual agregado! Às vezes fico amarfanhado e azafamado por tantas atribulações, turbações, aflições no dia a dia e simplesmente me esqueço que sou feliz! Sou feliz porque te amo. Sou feliz porque me ama. Sou feliz porque tenho pessoas sinceras e delicadas ao meu lado - meus amigos, meus irmãos. É isto o que preciso lhe dizer, minha querida filha – e o digo com todas as letras: eu te amo, Íris. E muito!

Não sei se por causa da idade, ou mesmo porque tenha crescido um pouquinho mais espiritualmente, mas, o fato é que a cada dia que passa, fortaleço em mim a convicção de que as pessoas que amamos devem saber, por gestos e por palavras, o quanto são importantes e necessárias para nós. Devemos alardear o nosso amor, comunicar a nossa amizade, multiplicar a nossa inspiração divina de vida.

Queria que soubesse que os meus melhores dias passei ao seu lado. Você é minha estrela preciosa, meu justo diamante, chuva e sol, a palavra certa, a certeza de ser.

Sou o seu pai e me orgulho muito de sê-lo. Conte comigo, sempre.

Franca, 12 de setembro de 1997.

Sérgio Jacomino.

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