É o vento que se insinua pelas frestas das janelas, são os sonhos que esboroam o frágil sentido de minha vida, são os sobressaltos, os sustos, o transir-me pelo inesperado, que se anuncia inominado.
Estamos já no domínio daquelas coisas que não têm nome. As minhas orações são como tocha tímida diante dos portais majestosos, e quando ilumina, bruxuleante, descerra mistérios, signos indecifrados, tem o condão de operar uma transubstanciação alquímica que altera fundamente a natureza de todas as coisas, principalmente daquelas que me são familiares.
Tudo agora é certeza e dúvida, pusilanimidade e destemor, claro e turvo, suave e tosco.
Na primeira noite, estive em um terreno acidentado, mal postas as barracas e as precárias cabanas, eram todos japoneses que afoitamente disputavam sabe-se lá o quê. Estive com a Jam nesse cenário, e estávamos resfolegantes, excitados e principalmente concertados numa solidariedade e cumplicidade que eram a perfeita expressão do nosso amor, algo assim como a restauração do melhor sentido que imperava nossas vidas. Mas, havia mais do que isso no sonho, havia a certeza dormida, que trazia na algibeira, inconfessa, de que já não me era possível atravessar o Grande Hades.
Na segunda noite preparei-me para a jornada. Orei pela saúde e alegria, minhas e da Jam, suspeitando que o noite seria de viagens, vez de lançar-me novamente às ondas perturbadoras do Mar.
Antes de acostar-me, message in a bottle, lançada na internet:
FRANCA - AEC Chic Chopp
Zanzando pela city,
jantar na balbúrdia,
o rei do gado imperando sobre o frango à passarinho...
e a cerveja:
titties'n beer
Olhares furtivos flagram
os modelitos que se insinuam assim,
abolerados!
(Sexualidade brejeira,
olhares-mísseis),
Observo o encanto suburbano dos
aeroportos, paineiras, dermínios,
das vilas tião & leporace.
O desejo fabril das operárias:
sexualidade febril de mulheres faber
tesão maquinado... fulgurações,
tontas reminicências da chuva:
rain dog
SÃO BERNARDO
São Bernardo é minha república,
minha eterna terra-à-vista:
milenes multifárias,
na chuva em metalurgia.
Carona no tesão de Lula, ABC e Valencise.
A terra amarrotou-se em desejos,
em Janes no outono,
Lennon, Ella & Rolling Stones:
send me a letter Negrita,
send me a letter!
Margaridas brotam sorrateiras no MP,
cecílias (que são Lizt & Simply Red)
Mastroiani, (seus olhos negros)
e o vento,
sempre o vento,
sempre o vento!
Oh minha rainha de Aeolia,
que impera solitária
como um cristal na chuva!
Nem me importam as portas
nem as janelas
nem os trincos,
pois que me abri
como um guarda chuva às avessas
e suporto
a saudade das
estrelas!
TELÉSFORO
Tudo é muito claro prá mim, baby...
Saiba que a mim também incomodam: o entusiasmo, a intimidade, a clandestinidade.
O entusiasmo porque é a voz de Deus — e sempre resistimos, anjos caídos, ao sopro do vento que nos orienta e conduz - "o vento sopra onde quer, e ouves a sua voz..." (Jo 3:8) - e, afinal, não sabemos qual é o caminho dos ventos (Ec. 11:4).
A intimidade. A nós dois aborrece. Mas por motivos opostos: A você, porque lhe parece que a minha voz reverbera velhas cantigas, tange alaúdes e cítaras. A intimidade que você denuncia (e renuncia) para mim tem o nome de História. Uma história plural, contada e recontada milhões de vezes, amalgamada no íntimo de cada célula, explodindo no interior de cada átomo: diz com galáxias, pérgulas e vaga-lumes ao pôr-do-sol. Mas diz também com John Lennon, ainda com Warat, com Oswald, com estrelas cadentes sobre os céus em metalurgia. Diz com o que é — sempre foi, sempre será! — after all it is written in the stars...E por tudo isso me incomoda também. Como uma "dor elegante".
Já a clandestinidade é botão em flor. Encerra os encantos de um fruto maduro. É clandestinidade de jacarandás no inverno. Minha querida, tudo a seu tempo se mostra exato como uma pequena flor de jacarandá.
E depois, não há traição maior do que aquela cometida contra o próprio coração.
Não há direitos em amor, como assegura Arnaut Daniel. Não há, meu amor! Descansa.
Apresentei-me aos besouros, às aranhas e aos delicados fios que tecem, entretecem, insuperáveis vezes, ao ocaso... Às rochas, aos pequenos fetos, riachos, prímulas e ao lilás ardendo sob os sóis de minhas retinas... Ao vinho e sua espiritualização, flamejante ÍRIS, metáforas e o som de JAMES BROWN.
Ah! Como me dei conta de você, minha querida... como te reconheci nas galáxias — você que é tão especial na valorização desses detalhes importantes: afinal, o que pode ser mais importante para dilucidar nossas existências do que vaga-lumes ao pôr-do-sol?
Fica de nós dois uma espécie de conhecimento fundamental.
É como se esse conhecimento essencial, desentranhado agora pela dor, tomasse a forma de um mito, de um poderoso arquétipo, como se esse conhecimento ultrapassasse até mesmo os limites da minha própria existência e se consolidasse numa vasta e infinita teia de relações essenciais.
Sinto que atingimos, enfim, a Humanidade!
Wipping Post
Girassóis e vagalumes
"(...) Eu a preferi a cetros e tronos e avaliei a riqueza como um nada ao lado da sabedoria. Não comparei a ela a pedra preciosa, porque todo ouro ao lado dela é apenas um pouco de areia e porque a prata diante dela será tida como lama. Eu a amei mais do que a saúde e a beleza e gozei dela mais do que da claridade do sol, porque a claridade que dela emana jamais se extingue (...) Há nela, com efeito, um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, puro, claro, inofensivo, inclinado ao bem, agudo, livre, benéfico, benévolo, estável, seguro, livre de inquietação, que pode tudo, que cuida de tudo os inteligentes, os puros, os mais sutis..."( Sabedoria 6.7)
Nem Narcisos,
muito menos as ansiosas rosas...
Apenas girassóis & vagalumes
E não sabemos ao certo o que nos une.
Mas temos a certeza
de que não é
vento.
Meu amigo,
Visitei sua galáxia e reconheci em cada frase sua dor e seu amor.
Brilhante como as estrelas, essa iniciativa tão bela de fazer poesia da poeira do passado.
Você tem o dom da transformação. (12 Mar 1997 18:30:47 -0300 - Adriana Gianvecchio)
De volta para as estrelas
Atentamente sorvi seu trabalho ou quem sabe, prazer. Como um vento vindo das galaxias, aponta sua vida, sua dor, seu passado e a inquietude de seu futuro.
Estrelas,
pontos distantes num emaranhado
celestial
a revelar que o amigo tem
liberdade e intimidade
com os astros e, também, com as
estrelas.
Não apenas aquelas ali do ponto distante mas também aquelas que assim se chamam cá na terra. No silêncio, no lamento, a alegria de um momento, de um período, de uma vida. A lembrança do som, do aroma da presença ainda que fugidia e distante. (13 Mar 1997 09:19:07 -0700 Elcio Trujillo)
Galáxias
It was written in the stars, você ia ter tudo a ver com "escrituração". A sua fórmula encanta e despista: Viver poeticamente ou poetizar a vida? Se não é uma rima parece uma solução, como talvez preferisse aquele grande poeta.
Porque não há poesia maior do que a vida,
só a recriação dela em poemas
(poetizar a vida?)
pode proporcionar tão essencial espelho
para vivermos poeticamente?
Então é isso, descobri a sua fórmula: você vive poeticamente e poetiza a a vida com um `a vontade de causar a doce inveja dos espíritos menos agraciados. (Que coisa: São Bernardo já tem o seu "Samba" e nem suspeita disso!) (Sat, 15 Mar 1997 18:53:24 -0300, Fátima Rodrigo
Poeiras: Não eram cacos de dentes no chão, eram reflexos das poeiras do céu...saudades...saudades...saudades!!!
Não consegui ler, as palavras são tantas e eu tão dividido, fragmentado. Sempre à cata de estrelas, vi o resto, vi os mortos, vi a vida fugindo desesperada; distante três dias de qualquer esperança que pudesse me resgatar e furei os olhos e quebrei todos os dedos e movimentos e dentes e desejos. Não eram cacos de dentes no chão, eram reflexos das poeiras do céu... saudades... saudades... saudades!!!
Depois fui acordando entre tantas bocas e beijos lascivos, olhos de vidro e luzes refletidas (nas vitrines, nas poças d`agua, nos olhos da saudade) e assim cheguei mais distante de qualquer lugar que poderia ter imaginado chegar e, talvez por isso, me vi livre de tudo o que poderia ter sido por
mim mesmo antes pensado: O Jogo da Amarelinha, as saudades, os eternos significados, eu sou eu atravessando a rua comigo, contigo, repleto de saudades e sabendo que talvez nunca mais aconteça o encontro, quando meus olhos olharem os teus, ficaremos como dois idiotas tentando colocar (entre nós) um monumental passado que por isso mesmo não significa nada, ou melhor: somos nós! Eu sou o que melhor recebi de ti e de você mesmo não restou nada apenas em mim esta busca equivocada pela poesia, pela vida: plena, inteira, absoluta: muito mais que as palavras... Como no próximo encontro será possível agenciar os mesmos afetos e despir-nos de anos e anos de ausência que ficam tão grandes imensos como os prédios dos desenhos futuristas da MTV e os meus ficando brancos cabelos e o coração ainda sem temer ( quase desejando) o cataclisma cardíaco e as palavras vão
todas amontoando-se e eu desesperadamente em fuga de tudo o que já sei: o novo é sutil, o novo é febril, o novo é o meu desejo desesperado de estar vivo: mordendo as mãos para tentar algum sentido. (Waldir Arnaldo Martins)
Apontamento
A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá! Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu. Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada. E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela. São tolerantes com ela. O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes, Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem. Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros. A minha obra? A minha alma principal? A minha vida? Um caco. E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
Fernando Pessoa (poesias de Álvaro de Campos)
Meu bom amigo Sérgio,
Somos todos seres em movimento,
na suave dança cósmica,
Podemos nos encontrar, de repente,
na dança da precisão do acaso.
E nos reconhecemos, apesar de "estranhos"
Que grande galáxia nós vivemos!!
Renata Braz de Faria (Sun, 27 Apr 1997 13:53:14 -0200.
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