quarta-feira, março 29, 2006

A trovoada


Quantos anos faz que eu não testemunho uma tempestade elétrica? Que não me assusto com os estrondos de uma vigorosa trovoada?

Esta noite a forja celeste pôs em pânico o pequeno Pedro.

A madrugada metalúrgica, varrida por rajadas de vento e chuvarada, nos atemoriza com sonhos arcaicos. Colho o Pê em seu berço navegante, resgato essa pequena lanterna do mar de procela repentinamente tornado ignoto. Aninho seu corpinho trêmulo, protejo-o no acalanto de nossa cama. Enlaçado ao pai, seus olhinhos assustados encontram os meus. "Acalme-se meu pequeno menino, fique tranqüilo meu querido homenzinho. A manhã tarda, mas a noite e os trovões passarão".

Adormeceu nos meus braços. Talvez fiquem gravadas no fundo da alma desse pequeno a fortaleza e o conforto de um colo amigo e seguro. O colo do seu pai.

segunda-feira, março 27, 2006

zanzando pela cidade zanni

Domingo é dia de circo.

O Pê acordou febril, a Lê a mil. E o Thi dormiu...
Como fazer?

Zarpei pela Rubem Berta tranqüila, zunindo pelos costados do Ibirapuera com a dobló grafite riscando certeira a 23 de maio... Putz, vou passar diante da horrorosa estátua do cassino... Tudo bem! A cidade e suas fealdades.

Tinha que chegar pontualmente às 11.

Sim. Pontualmente às 11h. a banda desafinada do Circo desborda suas notas frouxas.

O Circo Zanni está fundeado num terreno de muitas árvores - um bosque repleto de figuras misteriosas que a imaginação da Lela criou. São lobos, bueiros, sombras. O cenário compõe o medo essencial de bocas-de-lobos que tragam violentamente águas da chuva, gravetos e o valente soldadinho de chumbo.

Diante do picadeiro, ela mira desconfiada a lona vermelha pendente de lanças cravadas nos céus. Impressiona-se com as flâmulas medievais. Silenciosamente penetramos no interior do espaço mágico e ela se aninha calada no meu colo, observando tudo, atenta.

O espetáculo tem início com seus ritos. O apresentador sentencia: "Senhoras e senhores, o Circo! o maior espetáculo da terra!". (Que bom ouvir terra. Temia ouvir globo...).

A banda se empertiga e com seus naipes estridentes ensaia uma coreografia descompassada. Ah! meu Deus, que saudade dos palhaços de minha infância. Tão genuinamente arrebatados. Tão humanamente patéticos. A idiotia sem foros de suficiência, sem sombranceria, ingênua, ferida pela aguda fragilidade humana.

Fui tragado por essas lembranças, transido de uma nostalgia de um tempo de arrebatamentos. Como se pudesse recuperar a visão sem jamais perceber que ficara cego, fui transportado para uma pequena cadeira fincada na serragem úmida dos costados do Tietê. Me vem o vôo da trapezista cruzando as estrelas incrustradas na lona encardida. Prendo a respiração: ela voa!


Nesse devaneio, sou fisgado pela coreografia das equilibristas e acróbatas que rodopiam vertiginosamente seus vestidos e bantás profanos, feitos só para os meus olhos. As pupilas se engastam nas cores em movimento, circulando, remexendo, insinuando-se por todas as janelas da alma. Volto sob varas ao Zanni.

Já agora flutuando no centro do picadeiro se acha uma linda bailarina. Radiada e pega da corda tesa, a bela acróbata rodopia, construindo uma frágil coreografia sobre o abismo, ligando a quietude absoluta que é o centro de todo movimento e o circo constelado de crianças algaraviadas. De repente, do coração da bailarina explodem pequenos relâmpagos de cores e brilhos, purpurinas e confetes, lançados na contra-dança dos ares, banhando a lona de uma fina chuva de pequenas lanternas fugidias.



Olho para a Lê e vejo um fio de lágrimas marcando o rostinho enlevado. Demoro para interpretar e compreender a emoção que parece brotar tão-só do maravilhar-se de uma bela imagem.

Certamente a minha pequena é uma generosa nascente de sentimentos puros, intensos e sadios!
Eu te amo, Lê.

Acima: Jacques Callot, Le Zani Ou Scapin (Zanni or Scapino) c. 1619. From the three Pantalons (Three comedians). Etching and burin Auckland Art Gallery Toi o Tāmaki Mackelvie Trust Collection.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

O fato

O velhote encarquilhado ao lado, com o fato de corte quadrado e algo deselegante, nessa figuração trópica (generosidade calculada ou desequilíbrio essencial?), a barbica que viceja na pouca carne dos lábios - "bigode ciliar", diria um amigo - esse velho homem que me olha pelo olho de minha filha, quem sou?

Dependendo da sorte, meu caro leitor, pode calhar de ser o outro - esse que amanhece ao meu lado, obstinado, impaciente, azafamado pelas urgências e solicitudes esquecidas. Um historiador, portanto!
Sou qualquer um. Na infinita certeza de que tudo calha num fato.

sábado, fevereiro 11, 2006

Axis: bold as love

Vlademir Ferrer Martines - ou Vlad, como atualmente é conhecido pela tribo juvenil que constela o artista. Para mim, simplesmente Mi - uma nota precisa, um signo, é assim que a minha memória aprisionou em suas cadeias o nome e a figura.

Verdade seja dita: Vlad parece nome de bárbaro eslavo que migra em hordas, faminto e determinado. Como é difícil decalcar a imagem retida no Orkut sobre a outra, que cintila na lâmina de um lago profundo e tranqüilo!

Mi, um cara doce, elegante, quase um Mi Bemol na suavidade e nos gestos. Lembro-me de seus desenhos - estes sim, arrojados, grafismos enérgicos, epígrafes de letras atiladas, feitas como se quisessem decolar, sobrepairando o oceano alveado, imprimindo matizes firmes, jogos violentos de contrastes, luz, sombras, dimensões. Acho que as letras daquele jovem advertiam já o firme caráter do homem!

A Internet nos dá a derradeira chance de revolver o tempo, recolher cacos, formar um mosaico que de certa maneira nos estrutura, reconforta, dá sentido à nossa biografia. Mas... tudo isso será verdade? É mentira? Pelo contrário? Isso me lembra o comentário da pequena Helena, resistindo heroicamente ao sono:

- "Papai, a madrugada ainda é de dia?", questiona na sua tagarelice interminável.
- "Não, Lelê; lá fora está escuro". Procurando evocar os rituais do sono, falo baixinho: "dorme, meu amor, é hora de dormir!".
- "Não, papai!" - retruca enérgica. "A madrugada é noite... mas é dia também. Noite e dia!".

Chego à exasperação com a sensação de que simplesmente não existi para as pessoas que escrevem nessa comunidade da Internet. "Ei, você aí, será que se lembra de mim?" foi a postagem mais desesperada que me permiti nos últimos tempos. Ouvia como resposta somente as minhas próprias perguntas.

Eis que num belo dia (ou noite) reencontrei o Mi, perdido numa dessas paragens insólitas da rede. De quebra o achado dá de iluminar algumas sombras tenebrosas.

Toda vez que tento, lembro-me do Mi em flashs intermitentes. Diz o velho koan: se quiser entender, não tente! Fulgurações vigorosas, arrebentos instantâneos, sumiços fugazes, relâmpagos em noites de verão...

O ginásio me assalta agora, com suas Normas e Veras, Alices e Mitiés, Jones & Saletes, Cidas pícnicas, doces Maurílios, loucos Maurícios. Ariel com sua inventividade insustentável. Dizem que depois de arremessar artifícios explosivos sobre o Segundão, inscreveu em tábulas rasas os detalhes de sua história. Em sânscrito...

Logo me assombra uma noite mercurial, os guarda-pós que nos tornavam, a todos nós, perfeitos chineses. Rostos sem nome, nomes sem rostos, restos da memória que a Rua Universal tragou na aventura do tempo.

O Segundão estava fincado na Praça Paul Harris. Lembro-me de que grafaram o nome do cara errado na carteirinha: Baul Harris. A secretaria do Segundão perdeu a rota, com o perdão do trocadilho. Embora a construção se debruçasse ao norte, servindo-se do busto rotariano como alicerce, era pelos fundos do colégio que tudo bulia. Houve um tempo em que chegava sempre a tempo de me entreter com os alunos que saíam a retro no final da tarde - por aquela porta verde explodia um jato generoso de jovens ruidosos indo ao encontro de seus amores e do ônibus que vinha de um Riacho Grande longinquo e misterioso. Tesão, alegria, chuva, pipocas. E Alice. O meu namoro com a misteriosa Alice durou exatamente o giro anti-horário nos costados do Ginásio. Não preciso lhes dizer que aquele amor tarda em mim uma eternidade!

Meu caro Vlademir. Não sei como o conheci, nem sei como nos despedimos nesta vida de tantos encontros e partidas. Olhando fixamente as suas fotos, vejo um outro que talvez suceda o Mi, agora alguns sustenidos acima. Quem saberá em que altura esteja eu mesmo, nessa partitura absurda, nesse contraponto imponderável?

Sei, contudo, que nalgum tempo, nalgum lugar, existi. Acho que realmente existi e resisti, confirmadas as minhas suspeitas. Nosso encontro foi o meu crisma. Obrigado!

PS: Axis: bold as love é um disco de Jimi Hendrix. Posso qualificar o trabalho como "a trilha sonora de minha vida". As fotos acima foram feitas a partir de um vinil uruguaio que foi presentado ao amigo em 1974 e por ele conservado até hoje. Po-se dizer: high fidelity!

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Murilando o indizível


Murilo Mendes registrou em Poliedro (1972) que os meninos gostam mais de desmontar do que montar coisas.

Acho que tem razão.

A montagem sempre foi algo muito aborrecido. É como se caminhássemos a ré, recompondo tudo o que a curiosidade desvelou, com sua arte perita de insinuar-se delicadamente nos mistérios de todas as coisas.

Quando criança gostava de desmontar os velhos rádios a válvulas. Cheguei a ter uma coleção apreciável de quinquilharias imprestáveis - rádios que não radiam, eletrolas que não oram, televisores míopes, receptores distraídos, transmissores ensimesmados, amplificadores tímidos. Abria excitado as velhas caixas de madeira empoeirada, delicadamente esventrava o corpo inanimado de cátodos, resistores, bobinas, ímãs. Selva de cobre e estanho, quantos mistérios não encerra?

Não me importava o funcionamento ordinário de todas essas coisas - afinal é para isso que existem, ora bolas! Jamais consegui consertar qualquer uma delas. Muito mais excitante, isto sim, era o deslumbre com as minúcias, subtrair pequenas peças de um jogo inexpugnável, acomadá-las em caixinhas de charuto, cada qual integrando uma família, um gênero, um ente enfim, despojos para a derradeira decifragem que tarda afortunadamente.

Assim foi com as palavras. Desde muito pequeno deitava-me com uma coleção de revistas emboloradas, escritas em vários idiomas - que isso, sabido que era, eu sabia, embora não soubesse ainda ler. Ou passava horas folheando um livro que até hoje permanece inextrincável para mim: hagerups illustrerede konversations leksikon. Ainda o tenho às mãos; ele me flerta agora, sombranceiro, em silêncio obsequioso. Eu o amo por conter os desenhos e garatujas de minha infância. Carreguei-o por toda a minha vida.

Lembro-me de palavras soltas, de sons desmembrados, seccionados, segregados, desgarrados, e ainda assim como eram lindos! Recordo-me de "cãs de um lente", uma história que dorme nalgum livro aborrecido de gramática e cujo contexto ignoro solenemente. Palavrar fúcsias, sebes rosáceas, dobra inconsútil, irisado, crisálida, pipoca era uma aventura arriscada.

Assoviava com todos os dedos, com cada um, aos pares, sem eles, e me parecia bom que cada silvo sibilasse de um jeito ou de outro. Mais interessante do que a função do assovio era o som do atito. E cantava a plenos pulmões em "outras línguas", o que sempre municiava de receios irracionais o meu tio kardecista.

Um dia, uma bela manhã, tendo saído mais cedo da escola, armei-me de um velho gravador portátil de rolo e, apetrecho em punho, pleno de coragem, saí a campo. Posicionei a geringonça no ponto exato de vociferar qualquer coisa em inglês - uma palavra rara (bem sei qual era!) que me soava especialmente agradável. Ali quedei-me, gravador em riste, à espreita da criatura mais apavorante, mais aterradora, mais irresistivelmente linda e sedutora... Sim, a palavra me vem fácil... Márcia!

Ah! pequena Márcia, quis dar-te um regalo inefável, um pequeno bouquet sonoro, um objeto que fizesse vibrar suas cordas interiores, tão concreto e instantâneo como terá sido o meu indizível amor.

Murilo Mendes - ora pro nobis!


Poesia ou prosa - o que é superior? Nem o amor, nem a amizade, nem os nomes, nem os pronomes: Murilo Mendes, ora pro nobis!

Murilo Mendes me foi apresentado formalmente pelo Zé Ruben. Entregou-me cuidadosamente um exemplar de Transístor e logo deitou falação sobre as qualidades que eu já pressentia no poeta. O Zé é assim: simplesmente categórico. Seu discurso envolvente, sua sabedoria e intuição profundas, a erudição de um médico que se dedica aos livros, o Zé tem o dom de arrancar-nos dessa terra ignota e nos depositar seguros nas culminâncias. (Meu querido Zé Ruben, suas etimologias ilustradas me despertaram para os segredos inscritos desde sempre no coração das palavras).

Verdade é que o livro dormitou na biblioteca, esperando-me sábia e pacientemente. Os livros sabem o mistério do Tempo.

Falando de Tio Lucas, o médico das almas e dos povos, Murilo Mendes evoca uma idéia que me toca profundamente. "As pessoas e os fatos são contagiosos". Pois Zé, tu me contagiastes de uma encardida humanidade! Homem que se dedicou ao Homem (e aos livros) esse meu amigo médico realiza generosamente o talento da multiplicação do verbo. E de quebra me presenteia com as Confissões, de Agostinho. Medicina anima acabou sendo meu ex-libris...

A obra muriliana é aberta. Ilumina e dá sentido às minhas ruminações. Uma prosa que toca a gema preciosa da poesia. Lembra que o "reino de Deus pertence aos que consentem na sua própria morte", como se acha na Epístola Jacobi. O Bonfim é o senhor dos bons fins e dos melhores começos. Talvez resida aí o segredo do Zé. Ele traz gravado nas entranhas de sua verba generosa uma sabedoria indestrutível.

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Nesses dias chuvosos de Patrocínio Paulista, entre o choro essencial do Thiago e o desaforo do Pedro, me vêm essas lembranças entremeadas com as inovações e invenções da Helena.

- "Eu entendo a língua dos grilos", garantiu-me ao ouvir a cantoria de um ortóptero apaixonado.

- É mesmo? E o que dizem os grilos?

- "Cri-cri-cri...".

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A pintura acima é de Flávio de Carvalho. Retrato de Murilo Mendes, 1951, óleo sobre tela,100 x 70, Coleção Gilberto Chateaubriand



domingo, janeiro 29, 2006

sp-lisboa-amsterdão-alcobaça-lisboa-sp

sp-lisboa-amsterdão-alcobaça-lisboa-sp, post by Íris Jacomino.

A viagem em quatro shots:


1. Voando: sin city - lisboa. PRATiCAMENTE carreguei esse avião capenga da TAP, a única companhia aérea que passa novela de época pra gente assistir.

2. Viajando nos campos devastados de Van Gogh. Ele quase me deu um tiro na orelha...

3. Íris het rembrandt´s daughter. At the rembrandt´s plein = a praça onde tudo acontece...

4. Finalmente de volta a Portugal em Alcobaça, chacoalhando a Inês no bar da nana (foto)

Bjo, Íris

Obs. Fotografias pb de Miro Svolík

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Uma visita ao poeta


Abro um parêntese para revelar a visita da historiadora Adriana Gianvecchio.

Eu recebi a carta na altura em que tentava romper a parede de água que caia sobre a Quinta da Regaleira, em Sintra. Há tantos mistérios nesse encontro quantas foram as gotas caídas na relva.

Querida amiga, sua prosa está deliciosamente pontilhada de referências pessoais; o texto se abre como um fruto maduro. Eu a conheço e confirmo. Agradeço a visita da poetiza. (SJ)

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Recebi a chave de um templo, uma senha de memória para visitar um tempo em suspenso. Um tempo em mim que não se desfaz.

Um código de Alice, Clarice, ou será de Borges? Talvez Quintana ou Poe, ou essas ‘buscas proustianas’ que nos levam aos recônditos de nossa alma. Nossos porões. Ou seja, ao lugar- nenhum de todo abismo da reflexão que nos faz constatar o vazio.

Espelhos. Portas. Entremundos.

No início, tive receio de voltar a esse tempo. Até deixar o olhar passear pelos espaços da memória e encontrar uma nave que me levaria ao poeta.

O medo (dos fantasmas), se desvaneceu naquele sentimento de quando se reconhece a imagem de alguém tão querido que nunca mais se viu. Deixei-me levar pelas linhas claras, dissipando as nuvens de esquecimento cultivadas pelo olhar apressado e pela ilusão de tempo. No caminho encontrei um menino de alma antiga e olhos translúcidos que olham com curiosidade sobre todas as coisas. Criança hiperativa, hipersensível, perceptiva. Criança que cria mundos e brinca com o som e com o vazio. Silêncio...

Eis que surge o homem. Ele tem pressa. O homem cartesiano que não tem tempo, não tem hora, só tem razões. Homem hiper-eficiente, hipertenso, a colecionar papéis, letras mortas e inventários. Coisas dos homens. Legados. Lacunas. Labaredas...

Fez-se noite.

Um ser passeia por nós: anima/animus. O ser invade o Ser e revela constelações. O menino adormece. O homem procura lógicas. Procura sílfides. O poeta procura revelações. O homem dorme pouco, pois tem medo de encontros.

Estamos em um templo de pedras frias, antigas, cheias de poeira e versos. O velho sábio adverte que na República Ideal os poetas não podem entrar...Solidão.

O menino desperta do sonho acalentado por uma nota fina. Consciente da transição que virá pela necessidade da superação.

A Revelação

- Os políticos são os homens do presente, mas os artistas são os homens do retorno... Diz o profeta ao menino. E o homem encarcera o poeta e desperta. Ilusão.

O poeta gosta da água doce e de flores grandes e amarelas com gosto de quintal com terra molhada, gosta de doces frutos e de mato. O homem não. Não tem tempo para esses gostos.

Dorme o poeta por imensos setênios de exclusão na alma abandonada. Mas não morre, não. Vive na esguelha de um olhar que escapa ao trágico, da memória de uma paixão, de uma curiosidade, de um acorde. Soul. Vive nas coisas simples, na rede de dormir, naquela rua de paralepípedos, no barulho dos cascos dos cavalos do leiteiro, na casa pobre, na cortina de flores gastas, na colcha de retalhos coloridos. Vive no céu aberto, na chuva fria, nos pés cansados, nas lembranças proibidas, na dor cultivada. Jazz. Dessa dor que chora a seco, porque se esconde na seca árvore do longínquo quintal para onde o menino corre quando alguém se vai.

Mas é o poeta que não consegue verter lágrimas. O homem apenas acha que não chorou. Exclui memórias, escolhe os caminhos certos, as pessoas ideais. Mas o poeta não, prefere os duvidosos, os insensatos e escolhe os cantos e passagens que o homem não recomenda. O homem queima os diários que revelam o poeta. O homem é sério, tem pressa. Não pode se perder com delírios...

Já o poeta escolhe outros caminhos, ruas antigas, histórias poeirentas de velhos livros folheados por outros tantos poetas... Busca o poeta a aura mágica do toque que partilha a emoção retida no desvelar da alma feminina. Mas o homem não. O homem tem responsabilidades, contas, agendas, horários. O poeta tem um pôster de um músico com um rosto árabe, uma caixa de fotografias amarelecidas de outros poetas que está perdida no canto de um armário ao lado de um velho guarda-chuva e de um relógio parado. Testemunha ocular desse tempo que o homem acordou e fez adormecer o poeta.

Mas, o poeta resiste e desperta no espaço sideral em silêncio porque o homem acorda cedo.

O homem do retorno – ou, percepções desérticas.

Choro em cada parágrafo de lagrimas secas. Choro sem verter lágrimas, choro num silêncio que evoca o que não mais se atinge. Num abismo-eco. Árido. Desértico.

Um choro em pó, pasteurizado, introjetado. Choro sem chorar e dessas não-lágrimas produzo palavras. Choro letras, memórias, imagens desvanecidas, esquecimentos programados. Mas não assumo o choro. Quero verter o pranto mas não consigo. Retenho a água, salgada, sofrida, a expressão corpórea, a emoção na fonte.

E por não verter é que verbalizo a dor que para tantos não tem palavras não tem não tem... Choro pelo avesso. Cintilo perdas, petrifico, calcifico distâncias e negações. Mas não choro porque não posso ou será que não derramo a perda por que contê-la é ainda ter a dor? Não a deixo...

Por isso, retorno aos filhos, fragmentos, pedaços, pais, projetos, desafios, confrontos, completude, fractais, continuum, ancestralidade, múltiplos, entendimentos, dissonâncias, ciclos.

Agora sim: plural.

Sabendo que “procurava a inteira” como nas veredas de Rosa ***

Um convite à memória do poeta,

Chá de tília em tardes de chuva rala. Memórias cultivadas em caixas de uvas vermelhas e terra úmida nos pés. Pirilampos. Experiência metafísica. Meta-carne. Tempo.

Não pára, não pára, não pára....

E ainda me escondo naquele quintal, atrás de pés de conhecimento, silêncio e perdas cultivadas pelo não chorar. E empilho velhos livros para que me protejam dessa insana guerra.

Mas, onde estão aqueles dias nossos? Ah, ainda estão Lá... No percurso que leva ao não-lugar, no entremeio, na fresta, no abismo em que descobrimos que existe mais além do que podemos (queremos) perceber.

Nos vaga–lumens, nas vagas horas de nossas vagas lembranças.

Mensagens (de)cifradas – ou, te devoro.

Reconheço sua alma – dos lugares de outrora. Mas com os olhos bem abertos choro pelo poeta.

Mas saiba, procuro perder-te todas as manhãs. Só que não posso. E não entendo.

Sei que um dia encontrarei o poeta, quando ele superar o homem. Nesse dia, poderemos chorar em vidros, colecionar conchas, flores, árvores e estrelas. E escrever segredos para enviar em garrafas ao mar sem fim de nossas almas antigas e inquietas. (Adriana Gianvecchio)

quinta-feira, janeiro 12, 2006

serraia & amor de mãe



Vez por outra serviam uma comida intragável no ICC. Vocês se lembram de uma tal serralha ou serraia? Uma verdura amarga, plantinha de uma textura áspera, verde escura, parece com a danada ao lado. Ainda me vem o seu amargor que trava.

Eu me lembro de não tolerar esse complemento alimentar - que algum valor nutricional haverá de ter e parece mesmo que era da predileção daqueles cozinheiros da alma.

Minha mãe, querida Dona Amélia, contava uma história triste. Dizia que num belo dia, um ensolarado domingo de visita, dia de ritual, em que o mundo nos vinha em quanta pela voz fanha do falante metálico, pois meu amor me encontrou com as bochechas arroxeadas. Investiga daqui, pergunta dali, questiona um pouco mais... e eis que descobre que a tal verdura me foi socada goela abaixo, sob os protestos veementes e a resistência heróica do órfão revoltado. O grande algoz foi o empedernido Molhão! Sempre o Mo´Leão.

Fiquei revoltado. Deus meu! Ouvirei essa palavra pelos outros 40 anos que se seguiram - revoltado... francamente! Que outra coisa poderia ser, no calor de uma luta afinal vencida pela afirmação corajosa num mundo hostil e entristecido?

Essas e tantas outras palavras ficaram pelo caminho. Serraia, paquinha, Barroca, Molhão... A luta contra a ração diária de serralha é já passado. Um passado que me pesa, às vezes, e me visita com movimentos incontroláveis. Volta como um soluço de montanhas e vales profundos... me assombro com algo que se movimenta lentamente nas entranhas! Que raro descobrir que esse amontoado de carbono se estremeça com uma inesperada epifania!

Manuseando uma caixinha de madeira em que estão depositados fotos e outros estranhos seres, deparo-me com uma cartinha que este pequeno que me olha assustado enviou à sua querida mamãe.

Tudo ocorreu num longinquo dia das mães - um tempo esquecido do qual a única prova visível é uma carta amarelada guardada ao longo dos anos numa caixinha de madeira. Por que terá guardado isso por tanto tempo, mamãe?

Dizia a letrinha miúda e sofrida: Mamãe hoje dia das mães ofereço minha glória hoje neste dia glorioso ofereso com tando o amor e fé esta carta que quero a senhora, dizia o menino. E continua: Mehor eu no possa que se compre esta promesa que eu tanto amei por tanto... mamãe uma grande lembrança e uma grande felisidade ofereço esa carta e essa emensa gloria e maus coisas quero quando sair deste colegio uma sempre lembrança que eu fiz todas todas mais todas que eu feiz lembro lá em casa e na rua e que tanto fiz perdõe todas as coisas e de todos amores que tanto gostei da senhora que tanto amei que tanto gostei um coração sempre aberto. Mamãe desejo essa grande felizidade a senhora que tanto quiz que esta marcado no meu coração então mostra a emesa gloria que tanto amei que ofereço esta mamãe quero oferecer tudo iso que lhe gatanhar e resa o maior o maior que tanto amei a Deus que abençoe eu e a senho e nossa familia ajudai me a ler ea escrever.

Hoje não choro a passagem da D. Amélia neste terra de degredo. Tenho saudades vendo as suas fotos, minha querida mamãe. Aquietou-se em mim um choro miúdo que não se ouve no coro desafinado da multidão. Se eu pudesse dizer alguma coisa a respeito dessa cartinha seria certamente que o tempo verbal denuncia uma profunda irresignação e incompreensão. Apartado de minha amada, só podia lamentar o tanto que amei...

Mamãe, eu a amo verdadeira e integralmente. Com todas as forças de minha vida!

de seu filho, SJ.

domingo, janeiro 01, 2006

5th dimension


V. percebeu que anda esquecendo aquele telefone importante de uma pessoa querida? Percebeu que não se lembra mais do nome daquele filme... qual era mesmo? E o nome de um amigo da infância? O número de sua casa lá em Santana? O número da placa do primeiro carro?

Pois é. Tenho vivido situações semelhantes. Esse apagamento está associado com a destruição ou obsolescência de setores de minha memória afetiva. Como assim? Vamos lá, obsolescência: com o surgimento das agendas eletrônicas, "transferi" para os bancos de dados externos esse tipo de informação. As redes neuronais já se estendem para além dos limites físicos do meu cérebro. E a destruição? bem, voltemos ao ICC.

Outro dia estive no Instituto. Entrei por uma de suas portas, entre outras... sei lá, no mundo do ICC há tantas... E dei de caras com O Pátio. Aquele Pátio que todos vocês um dia conheceram. Aquele que, ao centro, disputando eternamente em importância e dignidade, estão Mo Leão e o velho ficus - ambos fincados no centro dos nossos corações.

Mas será mesmo aquele Pátio que os meus olhos agora divisavam?

Duvido!

De alguma forma a arquitetura de uma cidade, com suas praças, árvores, ruas e edifícios, são como células de uma incrível, variada e multiforme base de dados, à qual se liga a nossa memória afetiva. Nossas redes neuronais alcançam a cidade e estabelecem com ela vínculos profundos de reconhecimento e certeza e nela fixam elementos tão próprios e singulares, como é a essência de nossa memória. Destruída, puft!, somem, como que por encanto, as emoções que as paredes e edifícios guardavam.

E aí, então, tornamo-nos fantasmas. E passamos a sonhar...
Sonhei que percorria aqueles corredores do ICC e reencontrava os caminhos da minha infância nas câmaras e vestíbulos que se acham ainda mantidos. Quem são aquelas pessoas com quem me encontro nos sonhos? Estranho... a arquitetura se transformou, mas ainda reconheço cada caminho, cada recanto daquela formidável construção, o grande Instituto Cristóvão Colombo!

As imagens me vêm e me tomam de assalto. O ICC transluz. Suas paredes, o pátio, o ficus secular plantado no centro de nossa alma, em cujas profundas raízes as paquinhas dormiam, tudo isso me vem agora como um mar voluptuoso e irresistível. Ah! tudo está projetado nalguma inaudita dimensão. Uma vida que se mantém intocada com os sentidos próprios, em infinitas combinações. Tenho certeza que está lá, onde algo não está!

Lembro-me que um dia, num domingo ensolarado, deitei-me numa roda infantil instalada defronte ao Pátio. Os olhos postos no teto, pus-me a rodar, rodar e rodopiando, vestiginosamente, num sobrevôo de reconhecimento de uma terra incognita, vi abaixo de mim as coisas inatingíveis: me tornava afinal impossível às coisas impossíveis... E num relâmpago azul e luminoso, vi um velho pensativo, os olhos embaciados postos em mim, o que quer de mim, esse velho?

E logo acordo. Deus meu! O que quer de mim essa criança que não dorme?

A imagem: Next Stop: Immortality: http://www.futurehi.net/docs/RAW_Immortality.html.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

nau de garotos tristes


Ao lado direito do pequeno claustro havia uma sala de TV. Sim, me lembro de concertos para juventude, não sei como me recordo, mas havia uma arena, lá pros fundos, em que treinávamos luta-livre inspirados nos telecatchies da TV Excelsior.

Ah! o tempo voou nas tesouras e voadouras de Ted Boy Marino, deixando lá pra trás Fantomas, o Tigre Paraguaio, Aquiles, Hércules, Múmia, Índio Saltense e Rasputin...

Um dia longinquo, numa manhã festiva - fim de ano, sei lá! - o ICC armou-se em comemorações e resolveram projetar um filme na dita sala de TV. Não me recordo o nome da película, lembro-me vagamente de algumas cenas.

Era um filme dos três patetas. O projetor instalado lá atrás de nós e sua maquinação ruidosa furtava a atenção. À frente, uma enorme tela branca de plástico, descerrada e enfunada de sonhos e fantasias, movia uma nau de crianças alegres que deixava lá fora, no claustro, todas as tristezas e angústias.

Lembro-me de uma enorme aranha perseguindo os palhaços. Fulminava os traseiros com um jato certeiro de fogo. Ríamos à solta. Uma alegria sincera, verdadeira. O tempo parava suas rodas implacáveis, penetrávamos nos mistérios de uma alegria essencial. Jamais pude regozijar-me com tamanha plenitude.

O ICC nos deixou marcas indeléveis.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Íris - return again


Fiquei realmente impressionado com as questões que permeiam as aventuras filosóficas que alimentaram o TCC da minha filha. Espaçotempo - como reduzir essa complicadíssima discussão filosófica e conceitual a uma obra concreta de arte?

Ela tentou, a corajosa Íris! E conseguiu resultados muito surpreendentes.

Em primeiro lugar, optou pelo discurso fragmentado. Ou seja, contou uma história que se desencadeia com apoio no recurso da fragmentação multifária - uma explosão de sentidos com objetivos muito claros de desnudar a visão traída, essa pobre enganada, obnubilada pelo embotamento de nossas experiências ordinárias.

Como superar o véu - aquele famoso véu da consciência? Uma viagem no tempo nos libertaria?

A percepção de um homem comum é fruto de uma visão integradora e reordenadora de sentidos. Não gostaria de fazer aqui referência ao filme Matrix, mas me ocorreu justamente isso: agente e paciente desse fenômeno de reprodução de sentidos, a realidade se lhe apresenta como um tecido primorosamente urdido pela consciência coletiva. Indestrutivelmente construída. Afinal, é a realidade!

Ok, ok, ok. Os realistas dirão que nunca viram alguém transpor as paredes ou sair pelas janelas voando... Talvez não fosse possível mesmo - ainda que se considere que as experiências da física contemporânea estejam chegando bem perto disso!

Pois é a isso mesmo que a Íris se propõe - apresentar-nos um estranho mundo onde as coisas mais comuns perdem o sentido. E com isso nos causa um incômodo, uma certa vertigem, e o faz quando realiza a multiplicação e superposição de imagens naquelas salas de ambiência. Sua experiência é perturbadora justamente por induzir a concomitância de fenômenos, por fazer avançar e retrogradar a experiência do personagem, como se pudesse, com a deliberada fragmentação, despedaçar também a idéia de pessoalidade e singularidade. Caindo já nos domínios da transpessoalidade, destrói habilmente a idéia de personagem. De quantas personas estamos tratando nessas salas? Se radicalizarmos as idéias que se acham no núcleo da física quântica, qualquer resultado seria possível. Somos um e vários!

Outro recurso muito interessante foi abandonar o foco posto na estrita "objetividade", de modo que não só em relação às "coisas" poderíamos intentar subverter a regra do tempo - por outra: não só em relação à famosa experiência das bolas de bilhar que partem e já estamos antes do golpe - mas pricipalmente em relação aos sentimentos envolvidos.

As coisas têm alma? Será possível que os ambientes guardem a memória dos fatos? Os sentimentos das pessoas ficam gravados nas paredes? É possível o sentimento desencarnado? Essas coisas estranhas se tornam pertubadoramente próximas quando experimentamos abandonar, ainda que como mero exercício especulativo, a firmeza de nossas certezas arraigadas e construídas a partir de nossa percepção média. Sonhos, coincidências significativas, as experiências místicas e o arrebatamento pela expansão da consciência. Enfim, esses temas estão ali como um jogo de dados.

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Lila, não pude surrupiar um exemplar do TCC das suas mãos. Quero ler atentamente o que expôs e comentar aqui. Espero um exemplar!

Íris, eu fiquei muito emocionado com a sua apresentação. Senti-me realizado de certa e muito particular maneira. Vê-la completando esse ciclo tão importante, percebi que nossas vidas estão repletas de significados e maravilhosos sentidos. Espero que esses sentimentos cristalinos sejam realmente indestrutíveis, como o mais puro, raro e perfeito diamante.

Minha querida filha. Ainda que não mais existisse, que as paredes pudessem dar o testemunho desse meu grande amor!

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Isso são outros treze

Mais um 13 na minha vida!

Foi no dia 13/12/2005 que a minha filha Íris superou um importante desafio: terminou o curso de design gráfico, que ela fez com muito gosto e aproveitamento.

Ali estava ela, linda, com aquele seu ar de "distraídos venceremos", jogando um jogo de dados para uma platéia cativa, os olhos postos na profusão de imagens fragmentadas da exposição. A sorte estava lançada! Um Rubicão a mais - entre tantos outros obstáculos afinal superados.

A Íris retém o detalhe. Com as pinças agudas de uma inteligência vigorosa, descerra aqueles estranhos mistérios que calham na trama ordinária de nossas experiência cotidianas.

A sua procura é pungente. Revisita a sua própria experiência, busca chegar no limiar do seu instante zero - quando os mistérios afinal se revelariam pela superação das cadeias espaço-temporais.

A Íris terá chegado afinal antes mesmo de partir.

Prigogine, Eistein, Zappa. Simultaneidades. Volto ao assunto, pois a série de pensamentos que o seu trabalho desencadeou é fato digno de registro e nota.

Íris, por hora: parabéns! Além de me ter emocionado às lágrimas - "velho chorão", os professores terão pensado - deixou-me a certeza de que, afinal, entre tantos erros e acertos, entre alegrias e canseiras, afinal "distraídos vencemos".

sábado, dezembro 03, 2005

as fadas habitam o coração dos que amam

Hoje tive uma experiência assaz interessante com a Helena, minha querida Lelê. E merece ser contada.

Fui a uma livraria na sexta-feira; tinha um compromisso mais à tarde e resolvi espiar as prateleiras infantis nas vésperas de um encontro chato e burocrático. Remexendo a montanha de livros, à cata de ilustrações deslumbrantes como as de Gustave Doré (ao lado), encontrei dois lindos volumes de contos dos Irmãos Grimm, ilustrados pela artista russa Anastassija Archipowa.

Belíssimos! Fui imediatamente transportado para aquelas paragens mágicas, enlevado pelo traço elegante, delicado e absorvente de Archipowa.

Comprei num impulso os dois volumes, traduzidos por Maria Heloisa Penteado. Imaginei que seriam lindos presentes para a pequena Helena, que já se interessa por contos de fadas.

À noite, naquela horinha de passagem, em que os bichos do dia se recolhem e os da noite põem as patinhas prá fora - horário em que a Lelê já está embarcando à Terra do Pirlim-pim-pim -, resolvi ler as histórias e comecei logo pela sua predileta: chapeuzinho vermelho.

A história é uma síntese bem-feita da original e se mantém relativamente fiel àquela que conheço, traduzida por Íside M. Bonini e que foi publicada pela Edigraf, de São Paulo, em 1961, sob o título Contos e lendas dos irmãos Grimm, em 8 volumes. "Coletânea essencial", na avaliação de Karin Volobuef em sua página. O final difere um pouco. Mas não é disso que quero tratar aqui.

Já havio lido e decorado a história e sempre a contava de memória à Lelê - que a ouvia antentamente e temerosa da parte do lobo-mau. Quando chegava àquela passagem, cobria os olhos com suas mãozinhas, como se pudesse com isso deixar de "ver" o que só os olhinhos do coração enxergavam.

Certa noite, na passagem citada, quando Chapeuzinho se dirigia pelos caminhos da floresta rumo à casa da Vovó, pouco antes do encontro com... vocês sabem quem! Lelê, de um salto acrobático, escorregou para baixo da cama, carregando o lençol e o ursinho debaixo do braço. Eu ouvia a vozinha assustada, pedindo-me que continuasse a história - que esta não deve nunca parar!

E assim tem sido. As histórias dos irmãos Grimm nunca param.

Mas a novidade trazida da livraria mostrou-se um desacerto. O pai se encantou com as imagens de Archipowa, realmente magníficas - como havia se encantado com as majestosas ilustrações de Doré. Mas essas imagens oníricas e arquetípicas se por um lado têm a virtude de despertar a fantasia neste velho pai, evocando imagens arcaicas e infantis, por outro lado parecem limitar a imaginação da Helena, que passou a enxergar uma redução inaceitável dos entes que a sua imaginação criara (ou percebera).

- "A boca desse lobo é pequena! Como vai comer a vovó?" - perguntou intrigada, analisando escrupulosamente as proporções do maxilar do lobo. Cara à cara com a representação do ente malévolo de sua imaginação, o medo essencial que nutria, sabe-se lá de que figuração fantástica, se esvaiu diante dessa empobrecida caracterização.

- "Onde está a pia?" - disparou, apreciando a imagem que orna o frontespício. (A imagem retrata chapeuzinho e sua mamãe diante de uma mesa onde se acham o vinho e o bolo da vovó).

- "Que pia, meu amor?" - fiquei sem entender bem a pergunta.

- "A da cozinha, oras! Está aqui, ó..." - apontando com o seu dedinho um quadrante da página em branco. "Embaixo do branco", explicou enfadada, declarando o óbvio para este pai desatento.

Embaixo do branco? Francamente... A imaginação ultrapassa sombraceiramente os limites materiais do livro e alcança o inusitado, o livre, o incontido, transitando um universo mágico. Olhando para o nada do continente que acolhe delicadamente letrinhas e figuras, mergulhou novamente para dentro de si mesma. No branco do livro cabe tudo! E logo deixou de lado o volume e se entrincherou debaixo das cobertas. "Vem para o 'círculo', papai!". (Ah! ela se nega a considerar o picadeiro e seus personagens como integrantes do "circo". O palhaço, a equilibrista, a macaca Monga representada pelo bilheteiro que ela logo identificou, todos esses personagens fazem parte de outra dimensão que não a do mero circo. São habitantes do "círculo").


Há um livro imaterial muito mais importante. Existe em nossa alma um poderoso conjunto de imagens e símbolos que os livros, quando genialmente ilustrados, conseguem recuperar de modo muito imperfeito. Já não temos, muitos de nós, a pureza de coração para ver como vêem os pequenos. Descobri que os livros são muito importantes para nós, pais dedicados, mas não servem, ainda, para estimular a fantasia que nessa idade se forra às duras reduções. Capazes de tocar o ouro puro, oferecemos, em substituição, a palheta imperfeita de nossas representações. "She’s walking through the clouds / with a circus mind that’s running round"... (Jimi Hendrix).

Minha Lelucha. Estou nesta noite depositando os ricos exemplares num setor secreto da biblioteca, com a esperança de que amanhã de manhã, quando os bichinhos do dia saudarem o sol, sejam esquecidos. Por ora, somente por ora. À noite, aboletadados na caminha com véu, e sob a luz titubeante da vela de cera de abelhas que você tanto ama, voltaremos à terra mágica das histórias de fadas, percorrendo o caminho do conto, embalado pela voz calorosa deste pai que te ama profundamente e repete as histórias que você já conhece desde sempre.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Íris azuis atitós

Minha querida filha.

O que os seus olhos brilhantes divisam?

Vejo-a daqui deste claustro fortificado, distanciado no tempo e no espaço, e procuro o sentido desse arrebatamento.

Me pergunto onde estivemos esse tempo todo. Esse foco precioso e raro que rouba seus devaneios não pode ser unicamente a contemplação de um pai distraído e encantado com a beleza singela desse olhar. É muito mais.

Ah! Íris. Calo em dúvidas e certezas, que é tudo que um pobre homem pode levar dessa árdua peregrinação.

Se pudesse prestar maior atenção a esse olhar; se pudesse atingir as profundezas desse lago escuro e misterioso; ah! se eu pudesse...

Meu amor. Como eu te amo!

segunda-feira, novembro 28, 2005

Gus in the sky with diamonds

Rememorando as passagens maravilhosas vividas com o meu querido amigo Gustavo Pena, El Principito, achei que deveria publicar algo que somente pude compartilhar com alguns poucos amigos. Render uma sincera homenagem ao grande amigo - esse era o desejo que sempre alimentei ainda quando ele estava entre nós. Talvez me reste publicar as fotos que tenho em meu arquivo... sei lá! Quem sabe editar as músicas produzidas na década de 70 e que também conservei em grandes rolos de fita. Acho que sou um conservador mesmo. Pura vocação. Aqui vão, ao menos, as notas, com um adendo de um homem peregrino.

Acho que agora - somente agora - descobri porque passei a esquecer o nome do homem.Por incrível que pareça, a minha resistência às perdas (o olhar demorado de abismo que todos experimentamos na vida) é tão grande e tão presente em mim que por contaminação de sentidos acabei por fazer com que o nome do homem fosse para o fundo do lago plácido da alma.

Gustavo é um grande amigo. Irmão, pai, filho, espírito que me animou às belas coisas da vida.

Jazz? Digamos que "ouvi" pela primeira vez acompanhando seu gesto elegante no movimento de suas mãos inteligentes. Gizava no ar um complexo fraseado de John Coltrane; ou então tocava delicadamente o ar com a ponta dos dedos e assim me traduzia o fraseado de El mar. Assim compreendi a profunda arquitetura da música.

A Frank Zappa fui formalmente apresentado nas ruas eternas de Montevidéu. Quantas vezes nos embrenhamos em infindáveis jam sessions, madrugada adentro, percorrendo os caminhos musiciais que foram abertos por Hendrix, Almendra, Pescado Ravioso, Led Zeppelin e Zappa... Coltrane, Benson, Wes Montgomery,Jean-Luc Ponty, la salsa maravillosa de centro-america y... El blues deCris.

Sim, one size fits all, little wing!

Sua incessante procura, sua loucura, sua alucinada busca de si mesmo, nos mobilizava a todos, seus amigos e discípulos, numa urgência de delicadas solicitudes.

De alguma forma nos achávamos num mundo estranho. Reconhecíamos, um pouco assustados, os contornos familiares agora transfigurados pela magia da música. Como eu o amo! Como levo em minha alma as suas delicadas preces! Meu querido niño de Dios, principito de las alturas, deixa-me embalar-te em minhas orações, confortá-lo no seio generoso da vida eterna.

Deixe-me beijá-lo com todo o meu Amor e agradecimento!


Essas mutações em nossas vidas, tão abruptas, tão profundas, tão definitivamente definitivas... Como lidar com isso?Lembro-me de uma tarde - uma tarde como tantas outras tardes; todas ignoradas simplesmente - sentado nesta cela confortável quando, de repente, alguém irrompe em prantos e me informa que mamãe havia partido.

Nunca vou esquecer a Eliane com a rosto transfigurado em dor, uma dor reflexa, dizendo-me que tinha uma notícia grave. Não chorei, não desesperei, não sofri uma dor profunda e inconsolável. Não. O que aconteceu foi que a minha resposta à morte foi a vida. Note: na noite da partida de Dna. Amélia a Helena foi gerada. Não sei como pude. Nem sei como aconteceu. Nem sei se deveria... Se eu te falar que não pude chorar, ainda, até hoje, a morte de minha mãe, v. me acreditaria? Somente agora, passados tantos anos, a sua imagem me vem inesperada, forte, como uma grave notícia da alma. Não sei como lidar com isso!

Meus sentimentos implodiram como estrelas negras, com fagulhas centrípetas, recolhendo para si cada migalha, cada lágrima, absorvendo definitivamente cada pensamento, como se fosse possível exaurir-me de toda a humanidade em silêncio, até não restar mais nada.

Não pude chorar a partida de Nadir. Não pude chorar. Não pude chorar a partida da Bete. Não pude chorar. Não pude chorar a partida do Sérgio Santos, do Mário. Não pude chorar. A partida do Gustavo. Não pude chorar. Talvez não tenha querido ou podido chorar a partida de meu pai.

Todos se foram e eu, aqui, reúno os cacos para reformar o sentido da minha própria vida.

Às vezes me sinto como a alma do deserto, varrido pelos ventos frios das lembranças, numa noite sem sonhos. Um deserto que não é de desesperança, mas instruído da profunda compreensão do nada, da insignificância de nossas existências; um deserto cuja única substância é a certeza de que afinal já não resta nada. Pulva et umbra.

As minhas alegrias são só passageiras. Vejo a tarde com os olhos de quem já partiu. Observo a graça, que se manifesta nos meus filhos, nos lampejos que denunciam a eternidade em dança e movimento; transpassa-nos, com fluidez sublime, imponderável, fugidia. Ali está a Verdade! Mas já se me escapa, não está ali; estará acolá? Mais adiante? Que fez Deus de nós, seres frágeis e indefesos? Que esperança nos alimenta? E no entanto, continuamos a viver e a reviver, como se pudéssemos, afinal, vencer a última, a mãe das batalhas. Mas que derradeira peleja poderá existir quando já não há lembrança essencial da primeira?

Não tenho nome, não tenho idade, não tenho cidade, não tenho lágrimas.

"Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruinas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação"Proust, No Caminho de Swann.

Para o Sérgio, homem de cujo nome eu me lembro, com o carinho. Londres, 15 de julho de 2004El mar.

domingo, novembro 27, 2005

Tanto faz quanto se desfaz


É por isso que eu gosto tanto da Vi. Ela não se importa com estereótipos. Por que não aceitaria ser 21 no HotMail, quando se sabe que só ali somamos, os humanos, aos milhões?

Certo! Como as estrelas, não nos contamos pela mão. E no entanto, uma mão pode tocar outra, e outra, e este círculo se fecha. Ou não? Ah! que importam certos detalhes dessa geometria inútil?
O importante é que dois e dois são João. Ou Maria? Tanto faz quanto se desfaz. O certo mesmo é ser feliz! Por um triz, enfiar o nariz no chafariz... O que me diz?

Vi, é preciso ter olhos para ver e eu Vi. Eu vi você, menina. Eu vi, sim, mocinha. Eu vi a mulher que desperta entre espinhos e algodão (que estamos debaixo do sol).

Vi seu blog; e a blague. Sinceramente... enquanto duro? Mas às vezes é preciso ser dúctil! Por nós passam os camelos e os cabelos. Ficam os rabichos de letrinhas: http://www.quesejaeternoenquantoduro.flogbrasil.terra.com.br/

Beijos desde sempre e até (muito) mais!

sábado, novembro 26, 2005

ICC de novo - Pó de estrelas

Estive lá, quase não acredito. Acho que foi o ano 64, 65. Não sei. Sentíamos uma nova e estranha onda, as mensagens nos chegavam em garrafas, despertavam uma euforia inexplicável. Admirável mundo novo aquele que se anunciava.

Lembro-me das descidas ao pátio no intervelo das aulas, pela manhã, onde convivíamos com os alunos do externato - uma zuada de crianças correndo e comendo. Uma convivência digamos... desejante. Eles nos traziam notícias do front - uma revista com a foto do John Lennon, ou um brucutu, uma calça saint-tropez... Que era aquilo, meu Deus, que era aquilo que anunciava um novo tempo? Eu me aboletava nos cubos de ferro e desejava os acepipes dessa legião quase-estrangeira. Como o mundo era estranho lá fora... mas como o desejava! Ele nos vinha como soluços intermitentes.

Numa daquelas tardes eternas - essa luz dourada ainda tarda na memória - lembro-me de que os alunos atearam fogo numa planta e excitados diziam, "é peido de velha, é peido de velha"... e todos nos púnhamos a rir deliciosa e despreocupadamente. Éramos livres... Isto é, mais ou menos; sempre nos rondava a ameça da visita compulsória ao grande-dormitório-grande onde nos esperava, depois das orações de praxe, o velho Molhão.

Não é incrível que só agora, muito recentemente, vim a descobrir que o santo nome do Molhão era León? Irmão Leão = Mo Leão = Molhão. O velho leão rugia e se assentava ao trono de vime solenemente, com pompa e circunstância, a batina desbotada mas digna, o discreto sinal clerical no pescoço, repartindo a justiça e distribuindo as bênçãos de um domingo eterno que ainda embala a molecada ruidosa e travessa que habita minha memória.

Aquele pó de estrelas douradas, vermelhas, amarelas, ocres, polvilhadas pelo chão de ladrilhos corais, de onde vinha? A serragem úmida penetrava as narinas tenras do menino e encardia a alma com uma fragrância indelével. Quantas vezes não empunhei heroicamente uma vassoura levando adiante aquele pó de estrelas castanhas?

Por falar em estrelas, havia um telecópio. Eu não me lembro quem o trazia de alguma sala misteriosa, instalava o instrumento, ajustava, mirava, focava e nos oferecia o espetáculo do firmamento. Acho que era o Padre Pedro Zamberlan. Estranho objeto! A noite nos cobria com seu manto de mistérios. As estrelas, tão distantes, que segredos guardavam? Via à direita o cruzeiro iluminado por uma covarde luminiscência. Quantas vezes não pedíamos que o Padre Pedro desviasse o foco para lá, para resdecobrir as formas conhecidas da torre, tornadas estrangeiras pela luz fugidia; à esquerda advinhavámos o galpão e suas oficinas abrigados pelo manto da dama noturna. E fazíamos fila, os olhos arregalados, as pupilas dilatadas, nervosas como tímidas dançarinas.

Assim como as estrelas eram arrancadas de seu caldo escurecido, tragadas por aquele instrumento poderoso, assim éramos arremesados a um mar de aventuras arcaicas, embalados num carrossel de galáxias espiraladas e luzes fugidias.

Ah! essas estrelas meus filhos ainda as vêem em meus olhos!

Norma fundamental

[Mosaico em Hagia Sophia, Christus Pantokrator e Imperador Leão VI, O Sábio (886-912)] . Detalhe.

Norma fundamental! Nada mais, nada menos do que isso. E pronto!

Norma Wimmer foi um anjo em minha vida. Desde o primeiro momento que a vi na escola, logo naquele instante essencial - flagrado pela lâmina da alma -, imediatamente me apaixonei. Um amor terno, delicado e sincero, um sentimento raro, idílio - imagino-o dourar o coração de crianças quando são capturadas pelo encanto do verdadeiro Conhecimento.

Assim foi. Vejo-a claramente transitando entre as carteiras dos alunos - quase diria flutuando, com uma leveza indizível, diáfana, sempre elegante... Sustentava os olhares e corações aflitos. Alunos que éramos uma nova era, uma raivosa geração de work class heroes, expulsos da família, degredados do convívio dos pequenos compatriotas da infância, nós que logo seríamos aproveitados nas engrenagens do sistema.

Norma foi o meu esteio emocional. Disse-o, ela mesma, ainda ontem, quando nos debruçamos diligentes sobre velhos alfarrábios de antigos reis. [Ela trata de traduzir o Livro do Eparca, provavelmente um édito de Leão VI, O Sábio, vertido ao francês em 1846 por Jules Nicole, o erudito suíço].

Disse mais, que recebia a delegação diretamente de outra gema preciosa do Amor: Mitie Konishi, minha querida Mestra de Vida (e de língua portuguesa também). Esta teria recebido a delegação em primeira mão de minha própria mãe. (Minha mãe: sobre esta entidade misteriosa de poder e graça me calo em reverência e respeito).

O coração apertado, os sentimentos em revoluteio, vejo que o caminho do coração se perdeu nas brumas, prisioneiro da tirana, dissimulada e distraída, "la loca de la casa"... Eis que surge um fio dourado, a fita enovelada de minha própria história que parece desenrolar-se e expandir-se com a fúria duma galáxia que desperta de um sono sem sonhos. Sua luz banha as câmaras e reentrâncias desse labirinto que se contrói de muros e portas que se abrem e fecham para cada um de nós. A memória da Norma dá-me sentido. Nesse trânsito de sentidos, me reconstrói. Liga o futuro com o meu passado - e com isso ilumina esse instante mágico de reecontros.

Enfim, meus pais, minhas mães - Arys, Normas, Mities, Rubens - parece que vivi unicamente para reconstruir um estado de harmonia essencial, lá longe perdido, e que agora, depois de Franca e chegado afinal ao ponto de partida - minha Paulicéia Desvairada -, posso dizer que reencontro já meus frutos, amados rebentos simbólicos e naturais, os funcionários do Segundo de Franca e do Quinto em São Paulo, além de meus queridos Íris, Helena, Pedro e Thiago.

Flores partidas

Não posso terminar sem antes contar-lhes que ontem fomos ao cinema - eu e minha filha Íris. Fomos ao cine ao que parece tão-somente para cumprir o desígnio de me ver confrontado com mais um perturbador signo. Uma entre tantas estranhas e mágicas coincidências, como terá dito Jung.

Don Johnston, já no final do filme, declara para o jovem candidato a filósofo que não há trânsito possível entre as portas do futuro e do passado: "o passado já passou, o presente está aí e o futuro... ainda não chegou!”.. Talvez aí a chave. Don foi um bem-sucedido empresário de computadores. Mas nada mais se sabe desse cinqüentão vazio, vizinho de Winston - um etíope que se dedica a descobrir os laços de uma trama complexa e é simplesmente incapaz de resolver um pequeno problema de conexão na Internet. Não deixa de ser curioso o fato de que a procura de Don, que revolve os relacionamentos mal-resolvidos do passado, seja guiado pelas mãos imperitas de Winston - que lhe proporciona, de quebra, a trilha sonora dessa busca, o som exótico de Mulatu Astatke.

Winston, um etíope-americano será o contraponto essencial de Don. O negro que emprestará ao cinqüentão um sentido que ele próprio é incapaz de apanhar. E o faz por caminhos tortuosos, como a música africana, que pulsa como um coração poderoso sob a sucessão de imagens de uma América alucinada e perdida. Aliás, tudo pulsa na casa ao lado - a mulher negra, graciosa e sensual, cozinheira alquímica daquela calderada de filhos, sentimentos e música afro, o marido que fuma um baseado diante da filha e sinceramente se justifica e se absolve dizendo não se tratar de cigarros...

Os pontos de contato entre o meu encontro com Norma e o filme são pouco evidentes, já advinho o desconforto de quem me leu até aqui. Mas o que quero registrar, afinal, é que para mim se abrem as portas do conhecimento; minha biografia torna-se perfeitamente nítida. Há um passado e um futuro e entre essas culminâncias, retesado sobre o abismo, existe um presente, que se constrói com equilíbrio e elegância.

domingo, novembro 20, 2005

Este que fala por mim, quem sou?


Que estranho fascínio exerce a Internet nos espíritos inquietos. O que nos inspira a lançar garrafas nesse mar eletrônico? Inscrever nas estrelas, deixar um fio de ouro neste labirinto sem portas... Mensagens grafando nossos sonhos, apreensões, reflexões insones, perplexidades... Nótulas lavradas para tão poucos, quem sabe quem? Para quê?

Falamos para nós mesmos na esperança de que nossa voz sobreviva na memória dos outros? Potência de cognoscibilidade? Publicidade organizada de sonhos?

A Internet é o registro que gera presunção de conhecimento de nossa existência. Afinal, quod non est in retes non est in mundo, diria um amigo querido, recuperando os sinais da tradição.

Essa presunção de vida e sonhos é relativa, como sei! Quantos de nós não perambulamos pelas paragens eletrônicas exauridos de espírito - fastasmagorias, simulacros de vida projetados em bilhões e bilhões de elétrons zunindo em redes pós-neuronais, pocurando, à imagem e semelhança de seu criador, recriar-se e armar-se de espírito e virtude... Este que fala por mim, quem sou?

"Por acaso, surpreendo-me no espelho:
Quem é esse que me olha e é tão mais velho que eu? (...)
Parece meu velho pai - que já morreu!"

(...)

Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar - duro - interroga:
O que fizeste de mim?! "

[a imagem é do Dr. Julien Clinton Sprott - http://sprott.physics.wisc.edu/sprott.htm, Professor de Física da Universidade de Wiscosi. O Excerto do poema Espelho é de Mário Quintana]

sexta-feira, novembro 18, 2005

Pedro - velvet note


Este blog tomou um rumo inesperadamente intimista. Acabei confidenciando a amigos que isto parece um diário. Acho que é mesmo! Estou aqui exercitando a postagem de mensagens em garrafas, na esperança de que os olhares não ultrapassagem a bruma deliberada que pretende distrair a vista nesta viagem.

Gostaria de registrar um depoimento sobre o Pedro, já que sobejam fotos da Helena e agora também do Thiago - além de algumas imagens que os meus poucos leitores consideraram um tanto quanto extravagantes.

O Pedro era esperado há muito tempo. Posso dizer com certeza que fui um homem de muitos sonhos. Encontrei uma mulher que me acompanhou em todos e hoje, numa mirada retrospectiva, vejo que realizamos muitos de nossos desejos sinceros de alegria e felicidades. Foi assim com o próprio relacionamento - algo impensável nos inícios. Afinal, a diferença de idade, de temperamento, de experiências, tudo apontava para uma aventura sem conseqüências.

Mas não foi assim. Achamo-nos nesta busca intensa e os frutos vieram, um após o outro.

Não posso deixar de apresentar-lhes o Pedro, meu querido Pepo. Com sua suavidade foi conquistando aos poucos o coração do pai e hoje tem um lugar só seu, com garantias reais.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Helena & Pedro


Esta pequena nota é para justificar a minha ausência ontem. Terminava de escrever o texto e o caos se instaurou em casa. Deixei prá depois...

A Dra. Patrícia Ferraz registrou severamente que eu sou complacente com a Helena - estaria "mimando a menina...". Hum... Será? Duvido.

A chegada do Thiago tumultuou a casa, já disse. Mas o fez de uma maneira distinta, muito particular, dependendo da perspectiva dos envolvidos.

O Pedro parece ignorar o colega de teto. Parece... Na verdade está ligadíssimo nos movimentos suaves do Thiago. Ele se parece muito com a mãe: introspectivo, silencioso, suave, observador... coleciona sentimentos e os entesoura sabe-se lá onde. Quando irrompem, se torna enérgico, quase colérico, para logo aquietar-se, vergando-se timidamente. Sempre que chegava do serviço, estivesse onde estivesse, era o Pedro que primeiro me flagrava, o atento Pepucho.

Já a Helena é o inverso. Escancara o bocão e desfralda os sentimentos; dilacera cada situação, elevando dramaticamente o tom,ateando fogo às vestes e grita, chuta, irradia uma energia envolvente e quando menos esperamos, estamos já todos vibrando naquela mesma freqüência de estridências.

Eu mimo a Helena? - me pergunto sinceramente. Não sei... Ontem, pela madrugada, experimentei uma situação delicada. Ela enfrenta a mim e à Tânia e eu compreendi que não há luta que valha a pena, não há combate que se justifique, não há contenda que se mantenha. E aí, no paroxismo do ciúme, compreendendo seu drama, me recolho em oração, esperando que tudo se recomponha com a manhã que ainda tarda.

quarta-feira, novembro 16, 2005

cada estrela é todas as estrelas

O tempo escorre pelas mamas generosas da mãe. Cada segundo corre à caça do outro; este se foi... e logo outro vem. É a dança dos sentidos que distraem a consciência. Mas as dobras do tempo não são uniformes para nós dois - Thiago e eu - que convivemos esse instante mágico do nascimento.

A chegada desse menino coincide com a irrupção de sentimentos raros. E de sonhos. As imagens me vêm assim, inesperadamente. Lembro-me que foi uma prima - acho que foi a Elza - que pela primeira vez descerrou-me a largueza do abismo. Uma simples pergunta levou-me a uma sucessão de angustiantes paradoxos. "Quantos anos você tem?" - perguntou-me diretamente. Cinco, seis... sei lá! Devo ter apelado para os dedos de uma só mão. Ela replicou: "tão pouco... e no entanto parece que é muito... Não é?".

De fato. Nunca mais pude me esquecer do triste episódio. Realmente, parecia-me ter já vivido muito tempo, um tempo incontável, indizível, intratável, irredutível, tanto faz para um pequeno ser humano sem passado e sem futuro...

Aliás, a casa da Tia Dirce, com seu abacateiro, sua triste figueira, e a pessegueira seca no fundo do quintal, foi o meu refúgio nos momentos mais tristes da perda de meu pai.

O Thiago chegou e logo pôs os termos de nosso relacionamento: compreenda-me! A fragilidade de estrelas em gema. Ser testemunha de sua chegada, dar-lhe o primeiro banho, emocionar-me com o peitinho armando-se com os fogos do ar, encheu-me de uma alegria incontível. Por que choramos nessas ocasiões de pura alegria?

Aprender a respirar parece ter sido tão simples... e no entanto aquele instante representou o momento mais decisivo daquela vidinha que pulsava no colo da mãe.

Ah! Thiago... Já não sou o mesmo e agora me pergunto: o que fazer da minha própria vida? Compreenda-me! Aspira a um novo homem! Logo eu, um velho homem, tão antigo como cada estrela é todas as estrelas...



Registro de autoria: "cada estrela é todas as estrelas" é um rabicho de um discurso onírico gravado nas paredes da estância de Francisco Brennand (http://www.brennand.com.br/). Caminhar naqueles amplos espaços, átrios misteriosos, pontilhados de figuras arcaicas e arquetípicas, é, também esta, uma experiência de arrebatamento. "Não interrompam este silêncio,não interrompam este sonho", FB.

segunda-feira, novembro 14, 2005

rês pública

Ao historiador SJ e ao Thiago J

Nasceu o THIAGO, filho de meus amigos Dr. SÉRGIO J*** e Dra. TÂNIA.

É um fato que me deixa feliz e, assim, me faz suportar um pouco menos amargo a idéia de que o Brasil pára todo dia 15 de novembro (e amanhã pára mais um pouco) com o escopo oficial, assim se diz, de comemorar a proclamação da forma republicana de governo.

E a pretexto de superar o amargor do dia, vou dar-me o gosto de algum ócio e pôr-me a reler trechos de “Os Bestializados –O Rio de Janeiro e a República que não foi”, de JOSÉ MURILO DE CARVALHO (ed. Companhia das Letras), e, da mesma editora, freqüentar as competentes páginas de “As Barbas do Imperador”, de LILIA MORITZ SCHARCZ.

Ao Dr. SÉRGIO J***, que, tendo apurada vocação de historiador, não pode por agora entregar-se a símile ócio (ao menos enquanto é de seu dever embalar o THIAGO), sugiro com o devido respeito que aproveite a ocasião para uma visita sumária e nada confortante à permanente crise desta enfadonha república: a tanto, basta folhear os jornais de amanhã, os de depois de amanhã, os de depois de depois de amanhã, ou incorrer nos semanários desta semana, da semana que vem, da semana depois da semana que vem etc. Isso só está assim desde 1889. Que são cento e quase vinte anos de rotineiras crises numa Terra tão abençoada?

Confira o blog de Vítor Pradera (neto): http://uni.zip.net/

nasce uma estrela!



Thiago chegou. Só para registro (afinal, quod non est in retes non est in mundo).

Thiago, 51 centrímetros e 3,400k., veio ao mundo às 7:18h. aterrisou no colo da mamãe, sob o olhar atônito do pai, que a tudo acompanhou com castra determinação. Cabelos castanhos-claros, tez clara e altura jacomina: : sette ginocchia, como diria a Tia Marucha Jacomino.

Tânia Mara Correa de Andrade, prontuário 968395, passagem 1935770, leito N812-1. Esse o registro hospitalar.

O pai imaginava não poder chegar a tempo na maternidade. A mãe, com a tranqüilidade serena (e uma leitura desaconselhável para essa novel cidadina paulistana - do ventre ao berço - parto sem dor em casa...) já estava com 8 centrímetros de dilatação e em pleno trabalho de parto, com contrações regulares. Surfando na dobló alucinada, cruzando o Pinheiros na manhã cinzenta, irrompemos no Einstein tresloucadamente, à busca de uma maca para acomodar a mãe-em-fruto. Ufa!

O Thiago só poderia chegar no dia 13. A mãe pode se gabar de ter planejado, com semanas de antecedência, o dia exato do parto natural. O médico não acreditava... Quem nos conhece sabe o valor dessa data (que traz outra curiosidade: 1+3+1+1+2+0+0+5=13!) Santo Deus!

A primeira visita foi dos padrinhos Ricardo e Regina Dip. Bênção para todos, a conversa fluida, as comadres falando dos filhos, os padrinhos de livros...

À noite o Pedro e a Helena visitaram o irmão. O Pedro a uma distância pra lá de cautelosa; a Helena tocando e experimentando com o toque e um beijo furtado o gosto da novidade. Na volta o Pedro se encantando com as estrelas e a Helena chorando a falta da mãe.

Ah! o bebê marrudo e chorão, só quer saber de mamar... e de colo! Quantas diferenças entre os rebentos, que se tornam ainda mais nítidas com a maternidade (e paternidade) sucessivas em tão pouco espaço de tempo. Cada um dos filhos é um mundo de particularidades.

Este é um registro histórico, com abonação e a fé pública de George Takeda e Francisco Ventura de Toledo.

sábado, novembro 12, 2005

A chegada do Thiago


Dizem que os selvagens salvaram-se do tsunami arrasador porque os membros de algumas tribos, de cultura milenar, apercebem-se da iminência do perigo por meio de indicações e sinais observados no canto das aves e alterações no padrão de comportamento dos animais marinhos.

É possível que nós estejamos perdendo a capacidade de ver e ouvir. Afinal, vivemos um século de congestionamento de informações. Abrimos um plexo de canais, procurando apreender o output do sistema, e nos distanciamos com isso dos pequenos sinais, das coisas simples do coração.

Mas nem todos nós, com certeza! Alguns poucos ainda não fazem parte dessa estranha civilização que pouco a pouco se desumaniza. Falo especificamente do Pedro e da Helena, meus anjos que ainda têm olhos e ouvidos para ver - "bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem" (Mt. 13:16).

Digo-lhes isso porque a casa amanheceu diferente. Os objetos implicavam, as crianças acordaram indóceis, era possível identificar alguns sinais de desordem e caos. Mas o que quer significar essa mudança nas tramas interiores de nossas vidas? Os elementos revelam o desacordo: a noite mal-dormida, o trânsito na madrugada, os pequenos acidentes, a precipitação de sonhos tumultuados... O que querem revelar?

Sonhei que a minha querida Helena - a inventora da casa, meu anjo acróbata - se equilibrava perigosamente num cabo altíssimo. Cabo de alta-tensão. Acordei aflito, o coração apertado... Noutra seqüência onírica eu despencava de uma montanha de seixos e me surpreendia com a queda segura, em pé, firme e rijo. O que descerram esses símbolos?

Gostaria de escusar-me da obviedade dessa psicologia analítica ligeira. Claro está que todos nós estamos percebendo a chegada do Thiago e cada um, à sua maneira, procura equilibrar-se como pode, numa reacomodação da nossa complexa orquestra familiar. E isso envolve riscos. Toda transformação sempre representa oportunidades e riscos.

Ah! Lelê, V. faz o que pode... equilibra-se perigosamente. Mas segue corajosamente, e eu te amo por isso. O Pedro, os olhos postos na aventura aérea, enamorado de seu pai, simplesmente chora. Meu Pepo, o seu choro haverá de ser compensado com muitas alegrias que seu irmão haverá de lhe proporcionar. Eu estou ao seu lado nessa quadra, lindo menino.

Já eu, em plena queda, me sustento e me admiro que nesta altura da vida, em que ultrapassamos há pouco o cúspide (de novo!), já encaro o descenso. É possível, contudo, descer firmemente e amparar a mim mesmo e a todos que de mim dependem. A queda envolveu sabedoria e compreensão. Uma sabedoria que se sabe sabida e que nessas horas se revela como renascimento. Chegar ao chão firme e seguramente, na viagem desde as alturas, é pouco mais pouco menos do que simplesmente voar. Desses paradoxos é preciso tirar algumas lições que põem em xeque os cânones que recomendam uma vida esterelizada pelos padrões médios. Certamente, como os pequenos, é preciso estar unplugged.

Por fim, impassível nisto tudo estava a Tânia, meu amor. Transitando soberana, doadora de um fruto maduro a este mundo tumultuado e intranqüilo, segue sua trajetória de generosidade, alegria e bem-aventurança. Eu te amo, minha querida. Sou o seu parceiro nessa maravilhosa caminhada, Dei Gratia!

Eu saúdo meu pequeno Thiago, homologando o nome na etimologia que descerra um mistério familiar, eu te dou as boas vindas, meu anjo, desejando que possa chegar tranqüilo e saudável.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Cúspide & cusparadas


Aqui conto uma história incrível. Vivi-a no Instituto Cristóvão Colombo, no Ipiranga. Pena que não me recorde do nome dos envolvidos. Mas não importa. Foi assim... em algum momento daquele tempo - agora uma dimensão perdida da memória, encravada num profundo vale que parece não ter início nem fim -, comecei a participar do grupo coral.

Havia me esforçado bastante, esganiçando notas incertas, como impoderáveis são os registros pueris, exercitando-me nas fileiras que se faziam para o concurso vocal e para a escolha dos melhores (ou menos piores, suspeito).

Havia algumas vantagens em fazer parte do coral - como ensaiar nas horas das aulas, por exemplo.

Muito bem, um dia, depois de vários ensaios (eu fazia a segunda voz), fomos todos à frente do Instituto para receber uma autoridade religiosa, que além de trazer a sua aura inconsútil de autoridade, traria também medalhinhas do Papa. Suponho que voltasse de Roma.

Estávamos à frente da entrada principal, ansiando a chegada, quando alguém nos advertiu que lá do alto, nas alturas aeronáuticas e azuladas, de dentro do avião, nossa autoridade teria saudado aqueles meninos ansiosos por sua chegada.

Sim! Ele nos teria mandado um sinal, uma marca, um aviso, enfim, uma prova inequívoca de seu carinho e generosidade: a autoridade cuspiu! Havia nos mandado uma saraivada de saliva da aeronave e todos nós começaríamos a procurar as provas espraiadas no jardim.

Ah! como nos esvaíamos em delírios e fantasias esperando em pé toda uma tarde modorrenta de verão. Voávamos muito além de Roma, Nairóbi, passando pela Barroca, resvalando os sinos de uma igreja, o cúspíde do edifício em chamas, superando os eucaliptos desta e de outras paragens.
Essa história é adornada com as roseiras que ainda perfumam minhas tenras lembranças infantis.

O ICC foi uma viagem, com tudo de apavorante, triste, deslumbrante, e definitivo que uma verdadeira viagem proporciona.

Volto um dia com as lembranças de outros dias.

Por um fio...

O Instituto Cristóvão Colombo era uma microcosmo, um continente encravado num ponto qualquer do Ipiranga, entre a barroca - soberana, única, indisputada referência! - e um seminário carlista misterioso, enovelado em ondas de roseiras, rosários e rostos de figuras tristes, aos fundos limitado pelos altos muros que nos separavam de uma terra incógnita. Como os marinheiros grafaram em suas cartas marítimas: hic sunt leonis!

Pois havia ali, perdido no quadrante localizado entre lavanderias, refeitório e cozinha, um espaço místico, habitado por duendes, coelhos, fadas, pássaros, gafanhotos e uma infinidade de pequenas e delicadas plantas que vicejavam à sombra de um arvoredo.

Abel reinava em seus domínios: cidadela fortificada de madeira, guarnecida por galinhas, porcos e cachorros, fazendo costada com o prédio dos dormitórios.

Lembro-me que certa noite, tomado pelo medo, atormentado pela solidão e ferido por um sentimento que jamais me abandonaria - a perda do calor materno - caí em um transe profundo, esvaindo-me, perdendo completamente o sentido de mim mesmo.

Havia ao lado da cama um armarinho de madeira, onde minha roupa e alguns poucos pertences - a pasta de dentes, a escova, o par de sapatos Verlon - ainda confirmavam minha existência. As coisas clamam por seu dono! E só isto me bastaria para me recobrar e aí resistir, eu e minhas pequenas propriedades. Tão cedo compreendia que a propriedade tem, ela mesma, certas propriedades...

Tinha nos bolsos da calça um carretel de linha Corrente e rapidamente, antes que me esgotasse em transes e ondas de medo, engastei a pasta de dentes no fio da linha e fiz descer pela janela esse estranho pedido de socorro. E ali fiquei, imóvel, ligado ao exterior por um tênue fio de linha Corrente, experimentando que o mundo pesava exatamente o peso de um tubo de pasta de dentes.

Lá fora os cães ladravam na noite perturbadora. Eram as feras de Abel. À porta assomava um vulto escuro, cuja silhueta se conformava pela luz tíbia que preguiçosamente lambia os ladrilhos. Quem seria? Quem me visitava na noite?

E assim adormeci, com a certeza de que enfim despertava de um pesadelo! SJ

A tabeliã curte Janis... e o registrador imobiliário só se acalma com Frank Zappa e Jimi Hendrix.

Ah! adorei a história contada aqui: http://acontrariosensu.blogspot.com/2005/10/culpa-do-cartrio.html. Bem sei como é esse troço de concurso. Eu mesmo enfrentei um e agora sei o porquê das neuroses profissionais que acometem esses peculiares profissionais do direito que só se acalmam com rock´n´roll.

Sabe, direto do subúrbio paulistano, fui aterrisar nas franjas de São Paulo, às margens pantanosas do grande Rio Grande, entre paturis, restingas, paus-santos (ôpa!) gabirobas, sucupiras et coetera.

Na praça alguns lunáticos; um carro de som anuncia vez por outra o falecimento de um cidadão. Vai ziguezagueando pela cidade numa impressionante reminiscência da publicidade registral de proclamas.

E este escriba foi se instalar no único hotel da cidade, disputando com as baratas um lugar ao sol na fechada sociedade local...

Nada me consolava! A não ser as modorrentas tardes que faziam arder as cercas em tons rosáceos e fúcsias, purpúreas gemas, rubis ensangüentados que explodiam em festa e alegria.

No velho roadstar do Jeep rolava purple haze e o bom, velho e imbatível Frank Zappa.

Afinal, o que faz um registrador arder ao sol da restinga e uma tabeliã enfronhar-se na comunidade quatrilha? "We`re only in it for the money", poderia dizer e disse nosso blogger.

Sei não... Acho que rola vocação na parada! SJ

sábado, maio 22, 2004

Ser Padrinho, Ser Madrinha


Que coisa é ser padrinho e ser madrinha?

Padrinho é pequeno pai; madrinha, mãe pequena; pequena e pequeno mãe e pai porque são pais em sentinela, são pais ao lado dos maiores.

Não é coisa pouca ser padrinho ou ser madrinha.

Sinal disso e que a gente boa sempre muito cultivou, outrora, é que, no batismo, se nomeasse Madrinha a própria Mãe de Jesus e Nossa Mãe.

Um exemplo fala melhor do que tudo: a Helena, sim, a Helena que vimos logo ao nascer e vemos crescer. Ela conta para nós ao modo de uma filha. Acho que ela não sabe de uma coisa: num canto aqui de casa, onde reunimos fotos da família –dos que ainda somos por aqui e dos que foram nossos Maiores–, ali, juntinho a essas fotos, pusemos uma foto da Helena.

A Helena é nossa afilhada. É nossa pequena filha. Nós somos seus pequenos pais. Ela mora aqui em casa: numa foto e em corações.

Regina e Ricardo Dip

sábado, março 01, 2003

Seu nome é mais que um signo


Blainha, Lambrusca, Cuitelinha, Lelê, Nena, Lilica, Nenusca. Lela e Lelusca, Kenza, Kenzolina, Giuliquenza,.. tantos nomes, sons, rios significantes que desaguam neste imenso Mar de Helena.
Lampejo rubro, chama acobreada, você arde como um fogo secreto em busca de substância. Aqui estamos, querida Helena, aqui estamos!
Estrela fugidia! Você é a rubrica da nossa vida!
Seu nome é mais do que um mero signo. É testemunha de seu espírito. Expressa e significa o ser que anima esse corpo.
Seu nome se liga a antigas tradições. Indica uma história muito antiga. Sua eleição, dentre os outros tantos nomes gregos, aponta para o real significado de sua história. A chave se acha muito além desse mar de aparências.
V. é Helena. Tocha ardente, ser resplandecente, ente brilhante e reluzente. Lâmpada que ilumina a Terra dos Homens!

sábado, setembro 21, 2002

O sonho das Linhas Correntes

O sonho.

Era uma manhã no longo corredor que liga as casinhas da minha infância pobre e valorosa.

Na porta da casa 2, de minha tia Teresa, há um jovem (mais tarde vou verificar que um jovem com longa história) em infrutífero colóquio com mais duas pessoas – uma delas, seguramente, meu tio Antônio.

Quando me apercebi do que se tratava, interferi no assunto.

O jovem era representante de uma tradicional empresa, hoje já extinta. Mas ele o representava com uma interessante inquirição. Estava, justamente, fazendo uma pesquisa sobre os antigos clientes da empresa. Mas a nota característica de sua empresa é que não estava buscando informações de qualquer cliente. Buscava, exclusivamente, de alguns clientes – no caso aqueles que utilizavam a linha correntes.

Interferi no assunto. “Sim, a minha tia era cliente, mas não muito satisfeita”. E pus-me a dar o testemunho de quanto a minha Tia Teresa usava das linhas e carretéis da Correntes.

(Agora me vem à memória que a Tia Teresa trabalhava à época da Rua dos Estudantes numa camisaria e me trazia grandes cones que eram retrós de linha).

Na cena seguinte, já estávamos falando animadamente sobre as linhas, e o rapaz retirou de sua pasta uma revista que já havia sido editada com os resultados da mesma pesquisa – feita anteriormente com os mesmos fins e propósitos. A empresa retomava agora a mesma entrevista.

Falando e falando, retirava da pasta retrós gigantes, um dos quais trouxe às minhas mãos, quando notei que nele havia várias pontas de linhas coloridas, cada qual assentada em seu sulco-guia. Ao manipular o retrós, todos os fios caíram em minhas mãos. Ainda tentei reatá-los, em cada guia, mas foi impossível.

Logo em seguida, conduzi o homem-memória à casa de minha mãe (ou de minha tia, já não sei, mas não importa: O sentido do comunitarismo da minha infância era nítido. Lá encontrei minha tia Teresa, mas encontrei, bela e jovem, minha mãe.

Estava na cozinha. Disse a todos (havia mais gente) que havia trazido alguém (o homem-memória) para passar a noite, e logo fui adentro as dependências da casa. Minha mãe, agora enérgica e opiniosa, exatamente como a conheci na infância,  já me negava a execução da idéia. Mas entrei à casa e percorri as dependências e já não me lembro se o homem-memória me acompanhou ou não.

O interior da casa

Dentro da casa havia utensílios conhecidos. Mas alterados. Por exemplo, meu velho gravador de rolo estava tocando uma linda música do Yes, interpretada pelo Frank Zappa. Diz a letra da melodia que ainda soa na minha mente-coração:

Heart of sunrise 

Love comes to you and you follow
Lose one on to the Heart of the Sunrise

SHARP-DISTANCE
How can the wind with its arms all around me
Lost on a wave and then after
Dream on on to the Heart of the Sunrise
SHARP-DISANCE
How can the wind with so many around me
Lost in the city
Lost in their eyes as you hurry by
Counting their broken ties they decide
Love comes to you and then after
Dream on on to the Heart of the Sunrise
Lost on a wave but you're dreaming
Dream on on to the Heart of the Sunrise
SHARP-DISTANCE
How can the wind with its arms all around me
SHARP-DISTANCE
How can the wind with so many around me
I feel lost in the city
Lost in their eyes as you hurry by
Counting their broken ties they decided
Straight light moving and removing
SHARPNESS of the colour sun shine
Straight light searching all the meanings of the song
Long last treatment of the telling that
Relates to all the words sung
Dreamer easy in the chair that really fits you
Love comes to you and then after
Dream on on to the Heart of the Sunrise
SHARP-DISTANCE
How can the sun with its arms all around me
SHARP-DISTANCE
How can the wind with so many around me
I feel lost in the city

Nesse mesmo gravador – eu próprio o tratei de examinar – havia superpostas várias fitas, das quais uma só, naquele momento, estava sendo executada.

Fazia frio no interior da casa e meu tio Ary, já falecido, passa por nós para prover-nos de calor com uma aquecedor singular. Ao vê-lo passar pelo corredor ao lado, fui ao seu encalço e com um objetivo no coração, de manifestar uma palavra amiga e de reconciliação, cumprimentei-o e ele logo deu seguimento ao seu intento. Desencavou de um cômodo um porta-retrato-aquecedor, cuja foto não era de minha família. Disse-lhe que já conhecia o utensílio, mas a foto era de meu pai. Dei-me conta, logo em seguida, que cada família teria um porta-retrato-aquecedor próprio.

Voltei às dependências da casa, e foi ao encontro de minha mãe. Ela estava ocupada (como sempre esteve ao longo de seus anos de vida) e eu a vi transfigurada. Linda. Cristalina. Jovem e com seu cabelo corte channel, enérgica e vital, plenipotente para as pequenas coisas da casa e da vida.

Naquele momento eu a abracei. Não havia palavras. E num jato, veio-me um choro e um gemido pleno de infinitas perguntas e respostas, como se tudo fosse a mesma e a única coisa e minhas palavras já não bastariam.

Acordei com o choro pleno de perguntas e repostas de minha Helena.

Algumas reflexões

Corri ao computador para escrever o sonho – antes que suas imagens vívidas se esvaíssem nesse ambiente detergente.

O sonho é retrospectivo. Uma mirada ao passado. Uma busca do passado. O homem-memória é detentor dos retrós que suportam os fios da vida. Ali, enovelados, há um fio-conduzente de cada vida, de cada um de nós que, circunstancialmente, naquele momento histórico, convivíamos.

O homem-memória queria saber da história de cada um. Não era a minha história que estava no questionário. Era a de minha tia. (Talvez por esse motivo, minha mãe tivesse verberado contra a idéia de abrigar o homem-memória na mansarda dos mortos. Possivelmente, porque minha tia ainda é viva. E de fato, o homem não me acompanhou à casa). Lembro-me de que todos nós expressamos as restrições que a Tia Teresa tinha em relação ao dono (patrão) do homem-memória.

Nessa dimensão não é necessário percorrer cada fio para conhecer. Todos os fios caíram sobre minhas mãos, numa espécie de completude que se vai insinuar por todo o sonho. Quando tentei repor cada fio em seu lugar, já não era possível. Como não me tivesse assustado, suponho que não era mesmo necessário. Cada fio tinha um colorido especial. Ficaram depostos, num amontoado informe de fio enovelados.

O gravador também abrigava fitas superpostas. Várias trilhas sonoras. Ali, especificamente, o que tocava era a trilha sonora de minha própria vida. Mas havia outras, seguramente.

A minha mãe me fez pensar numa ideia que pode ser expressa em cápsulas. Sementes. Fetos. Deixe-me tentar expressar – ainda que toscamente. O gemido é a pergunta essencial. É também a resposta que se vai buscar ao longo da vida. De várias vidas.

Lembrei-me imediatamente do choro aparentemente imotivado da pequena Helena. Não está com fome, nem necessita de outra coisa que não integrar-se no corpo-origem de sua mãe. Acalma-se com o contato físico, com o pulsar sereno e generoso do coração materno. Matrix.

A ideia que me persegue depois desse sonho é que o meu soluço-gemido é tão essencial e tão necessário que se não esgotará numa só vida.  Compreender tudo isso.