
Fiquei realmente impressionado com as questões que permeiam as aventuras filosóficas que alimentaram o TCC da minha filha. Espaçotempo - como reduzir essa complicadíssima discussão filosófica e conceitual a uma obra concreta de arte?
Ela tentou, a corajosa Íris! E conseguiu resultados muito surpreendentes.
Em primeiro lugar, optou pelo discurso fragmentado. Ou seja, contou uma história que se desencadeia com apoio no recurso da fragmentação multifária - uma explosão de sentidos com objetivos muito claros de desnudar a visão traída, essa pobre enganada, obnubilada pelo embotamento de nossas experiências ordinárias.
Como superar o véu - aquele famoso véu da consciência? Uma viagem no tempo nos libertaria?
A percepção de um homem comum é fruto de uma visão integradora e reordenadora de sentidos. Não gostaria de fazer aqui referência ao filme Matrix, mas me ocorreu justamente isso: agente e paciente desse fenômeno de reprodução de sentidos, a realidade se lhe apresenta como um tecido primorosamente urdido pela consciência coletiva. Indestrutivelmente construída. Afinal, é a realidade!
Ok, ok, ok. Os realistas dirão que nunca viram alguém transpor as paredes ou sair pelas janelas voando... Talvez não fosse possível mesmo - ainda que se considere que as experiências da física contemporânea estejam chegando bem perto disso!
Pois é a isso mesmo que a Íris se propõe - apresentar-nos um estranho mundo onde as coisas mais comuns perdem o sentido. E com isso nos causa um incômodo, uma certa vertigem, e o faz quando realiza a multiplicação e superposição de imagens naquelas salas de ambiência. Sua experiência é perturbadora justamente por induzir a concomitância de fenômenos, por fazer avançar e retrogradar a experiência do personagem, como se pudesse, com a deliberada fragmentação, despedaçar também a idéia de pessoalidade e singularidade. Caindo já nos domínios da transpessoalidade, destrói habilmente a idéia de personagem. De quantas personas estamos tratando nessas salas? Se radicalizarmos as idéias que se acham no núcleo da física quântica, qualquer resultado seria possível. Somos um e vários!
Outro recurso muito interessante foi abandonar o foco posto na estrita "objetividade", de modo que não só em relação às "coisas" poderíamos intentar subverter a regra do tempo - por outra: não só em relação à famosa experiência das bolas de bilhar que partem e já estamos antes do golpe - mas pricipalmente em relação aos sentimentos envolvidos.
As coisas têm alma? Será possível que os ambientes guardem a memória dos fatos? Os sentimentos das pessoas ficam gravados nas paredes? É possível o sentimento desencarnado? Essas coisas estranhas se tornam pertubadoramente próximas quando experimentamos abandonar, ainda que como mero exercício especulativo, a firmeza de nossas certezas arraigadas e construídas a partir de nossa percepção média. Sonhos, coincidências significativas, as experiências místicas e o arrebatamento pela expansão da consciência. Enfim, esses temas estão ali como um jogo de dados.
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Lila, não pude surrupiar um exemplar do TCC das suas mãos. Quero ler atentamente o que expôs e comentar aqui. Espero um exemplar!
Íris, eu fiquei muito emocionado com a sua apresentação. Senti-me realizado de certa e muito particular maneira. Vê-la completando esse ciclo tão importante, percebi que nossas vidas estão repletas de significados e maravilhosos sentidos. Espero que esses sentimentos cristalinos sejam realmente indestrutíveis, como o mais puro, raro e perfeito diamante.
Minha querida filha. Ainda que não mais existisse, que as paredes pudessem dar o testemunho desse meu grande amor!























