sábado, maio 23, 2026

Gárgula

Era uma casa ampla, mas sombria. Tinha algo das construções antroposóficas, endurecida pelo concreto armado, aparente, quase brutalista. Havia movimentos na casa. Entes esquivos, de algum modo sensíveis.

Não os temia. Parei diante da parede fria e tive o impulso de atravessá-la. Sabia que podia. Atravessei. Vi-me do outro lado, parado, fitando o muro. Levitava. Não havia gravidade.

Então surgiu da parede espessa: um jovem de peito nu, tez marmórea, semblante sereno. Parecia desprender-se da matéria. Arrojava-se no éter. No meio de sua fronte, cravada, desabrochava uma pequena flor carmim. "Rubi sagrado", uma voz sussurrou aos meus ouvidos.

A casa era ampla,
fria, vazia.
Nas salas se ouvia
o ar vibrar nas cortinas.

Entes esquivos,
discretos, sensíveis,
espreitam o silêncio,
nos átrios da sala vazia.

Não os vejo,
mas não os temo.
Toco a parede
grave, sereno.

Sabia atravessar.
– Atravessei.

Do outro lado,
sem peso
contemplei.

Não há gravidade,
só o silêncio da tarde.
Do muro branco e informe
desponta seu rosto de mármore.
Lindo e forte,
flor carmim na fronte.
Num jarro de barro
brota água na fonte.

Sonho que sonho
de novo acordado.
Na fronte do anjo
a flor carmim:
rubi talhado.

fina flor carmim:
Rubi sagrado.

Ouça: Rubi Sagrado

Acesso: https://youtu.be/72Ax06jNKlQ

Um Homem Só

Um homem só,
em busca de si mesmo,
é difícil de se encontrar.

Um Homem raro.
Erra por aí.

E acerta.

No coração, o mapa secreto.
Caminha a longa estrada:
quieto, lento, desperto.

O outro lado do registro
é o verso do reverso, veio aberto.
Ponte sobre o abismo,
estrelas no deserto.

Tarde-me a partida.
Sem pressa, sem alarde.
Venha. Nobre Senhora.
Numa tarde qualquer,
estrela vespertina,
a iluminar a derradeira sina.

No outono, passe.
Trespasse dourado.
Tudo se apague.
Tudo se esqueça.

Um homem só, caminha.
Nobre, altivo, venerável,
suave. Como a brisa no prado.

Um homem só
atravessa o outro lado de si mesmo,
alcança a palavra secreta,
a chave encoberta.
Sob o manto sagrado,

No coração de pedras.


terça-feira, abril 14, 2026

De onde veio? Para onde foi?

A gente não sabe nada a respeito deles. De onde vêm? Para onde vão ao fim desta jornada?

O que fica é a história comum da família, entretecida na diuturnidade de uma convivência amorosa na Casa Amarela.

Chiara se foi. Dormiu um sono sem sonhos. Profundo. Derradeiro. Ao seu lado, no momento terminal, a nossa família uniu-se a ela para um adeus amoroso e agradecido.

Foram 14 anos de pura alegria, traquinagens, reinações e artimanhas. Nossa cachorrinha linda se foi às estrelas.

Tutu. Tutuila. Ismuleca. ⁠Isminina. ⁠Ismu. ⁠Ismuzinha. Kiaretmann...

Quantos nomes, tantos apelidos, carinho e ternura. Ainda ouço a Blyan chamando-a: "Tutu... Vem Tutuila...". Ela já estava surda, nada ouvia, batíamos palmas para chamar-lhe a atenção e ela vinha de mansinho, abanando o rabo, solicitando carinho e petiscos de naine (carne).

Chiara foi uma cachorrinha levada. Arteira. "Fazia artita", como dizia a minha pequena Nena. Ela aprontava das suas. Lembro-me dela correndo atrás das crianças e mordiscando suas canelas. Era ágil, ninguém lhe vencia nos cercos estratégicos que fazia. Ela "pastoreava" as crianças, certamente um comportamento ancestral da espécie.

Nunca soube a razão pela qual surrupiava e enterrava as meias dos meninos no jardim da Casa Amarela. Acho que entesourava o perfume da matilha — um velho instinto, desses que o tempo não apaga, confundindo afeto, posse e memória.

Outra feita, acho que foi num desses natais da Casa Amarela, dias perdidos num canto feliz da memória, e a Tutu conseguiu abrir as janelas da cozinha para abocanhar o peru que dormitava no canto da mesa. Danada. A vovó teve que ajeitar o acepipe para servi-lo mais tarde à família. Jantar americano, dizia a Blyan sem declinar o motivo da reforma.

Ela adorava abrir portas, janelas, e quando não conseguia, roía os beirais, o que deixava a mamãe enfurecida. Fazia isso nas tempestades. Ela odiava os trovões e ficava apavorada em dias de borrascas. Sempre tínhamos que acolhê-la nessas ocasiões. Tremia de medo, a Tutuila.

Tutu adorava bolas. Era goleira. Disputava com os meninos da rua. Postava-se junto à parede e saltava de forma ágil, abocanhando a pelota em pleno ar. Era perfeita goleira. Não deixava passar uma. Ah. Tutu, que saudades.

Os filhos do Antônio, nosso guarda da rua, Leonardo e Caíque (o Faísca), passavam horas com ela. Passeavam pelo bairro de bicicleta, ela os seguia sempre atenta, sempre curiosa. Chiara foi a cachorrinha que os entretinha durante os dias de férias.

Quantas vezes foi conosco para o nosso sítio em Patrocínio Paulista. Ia tranquila, nunca nos dava trabalho, adorava passear, pedia para beber água e fazer xixi.

No dia 11/4/2026 ela amanheceu tristonha. Não se levantava do cantinho dela. Não aceitava comida, não pudemos lhe dar os remédios. Resolvemos levá-la a um hospital veterinário, precisava fazer uma tomografia. Aproveitamos para lhe dar um certo conforto. Respirava com dificuldade, estava abatida e triste. Colocamos a Chiara na sua caminha e fomos no Civicão — eu, o Pedro e o Thiago — ao Hospital Veros, na Brigadeiro Luis Antônio. Ela foi em silêncio. Diz o Thiago que a Tutu lançou um olhar para ele e lambeu sua mão. Era sua matilha, despedia-se do Titi... Ele chorou.

Chegamos ao Veros e, ao levá-la para o pronto-socorro, ainda abanou o rabo para nós. Não lhe faríamos mal, ela sabia. Ficou internada. Passou a noite toda entubada. Sentia falta de ar, o sistema respiratório já estava irremediavelmente comprometido por um mal insidioso, e os veterinários resolveram abreviar sua estada entre nós.

No dia 12/4/2026, quando completaria 14 anos, 3 meses e 22 dias (ela nasceu 21/12/2011), reunimo-nos ao seu redor e vimos a estrelinha se apagar lentamente, deixando-nos tristes e vazios. Todos saímos do hospital transformados. Algo mudou profundamente em nossas vidas. Não sabíamos ainda o quê.

A Blyan escreveu num canto qualquer da internet:

A Chiara já estava velhinha e cumpriu o seu ciclo com muito amor. Despedimos dela juntos, mas cada um de nós sentiu e viveu a partida à sua maneira. Para mim a partida encerra uma fase muito especial — a infância e até mesmo a adolescência dos nossos filhos. São tempos que não voltam mais. As brincadeiras, o bolo quentinho no final da tarde… a confusão em forma de alegria. As crianças correndo atrás dos cachorros, os cachorros correndo atrás das crianças... O mais importante é que sejamos gratos pelos ciclos que se encerram. Quando um ciclo se fecha, abre-se outro novinho para sentirmos e nos alegrarmos. Que a vida possa ser celebrada todos os dias!

A Nena disse:

"Chiara. Crescer ao seu lado foi um privilégio raro. Você foi amor em forma de presença, de olhar e de silêncio que conforta."

O Pepo encerrou-se num silêncio hermético, profundo, doloroso. O Nini chorou. Não imaginava o quanto sofreria a falta da cachorrinha.

Eu sou imensamente grato à Chiara. Ela nos alegrou e doou um amor incondicional à familhinha da qual fazia parte, sempre junta e vibrante, a bordo desta nau. Com ela singramos o grande mar da vida.

Este livro se encerra no exato momento em que a Chiara se despediu da familhinha da grande Casa Amarela. Demo-nos conta de que a sua partida encerrava um ciclo de aventuras, alegrias, reinações, em que a infância e a adolescência completavam uma bela etapa de nossas vidas. Abrem-se as portas e janelas para novas aventuras, renovados desafios, tantas chegadas, outras partidas.

Assim é a vida, meus queridos filhos: um novo capítulo se inaugura no grande Livro da Vida.



segunda-feira, julho 15, 2024

As estações do meu Titi


Há exatos dez anos eu escrevia um pequeno poema para você, querido Thiago, a pedido de sua professora, D. Almut Lenk. Durante toda uma semana eu acordava pela madrugada e ficava cofiando a barba, pensando, pensando, pensando... O que poderia escrever para tocar suavemente a alma de artista naquela primavera?

Alçapão sombrio.
No coração da casa,
pulsava um quasar.

Veio-me então um poema, depois a série de haicais imperfeitos que remanesceram nalgum cantinho da sala... Quem sabe depositada naquele alçapão onde se acham todas as coisas perdidas na vida. Lembra-se dele, filho? 

Thiago, um dia eu fui menino. Deslumbrava-me o tapete achocolatado do Parque Dom Pedro II depois da chuvarada de verão; deixava-me estar ao rés do chão, quieto, entre besouros e moedas perdidas por gente esquecida.

A madrugada
lança gotas e alcança
a primavera.

Mas eis-me aqui novamente, meu querido filho.  Uma década se foi, lavada pelas chuvas de verão. Lá atrás eu lhe falava do viço de um botão em flor, de um menino arrojado, suave, criativo, sonhador; hoje, quando você entra nas tórridas regiões da vida, eis que uma nova estação se inaugura e com ela uma nova etapa de sua jornada nesta Terra dos Homens.

Lembra-se daqueles pequenos e delicados vasos de ouro a respeito dos quais lhe falei um dia? Pois é, eles já se romperam, liberaram o misterioso elixir que nos eleva e fortalece, nos torna aptos para os novos e importantes desafios da vida. Aventuras, um mundo novo por descobrir, batalhas gloriosas a vencer, amores e paixões, fortes sentimentos... São as tormentas da larga travessia que o aguardam no horizonte.

Contudo, não é possível lançar-se às novas aventuras sem contar com a sabedoria daquele menino gentil, suave, criativo e sonhador. Ele nos inspira, doa-nos sua intuição, a doçura, a criatividade e forja o coração de homens sábios. Sem ele podemos nos tornar violentos e impiedosos, homens de dura cerviz e de alma empedernida.

Lembre-se sempre dele, Thiago. Não o deixe à margem de sua vida. Resgate-o de onde o deixou um dia. Talvez este retorno ao Reino Unido possa significar um reencontro consigo mesmo, um reate com a sua parte mais elevada e inspiradora. Somente somos fortes quando inteiros, íntegros e verdadeiros.

Eu, um velho-menino, sigo cofiando, cofiando, sempre desconfiado, mas fiado na sabedoria dos anjos.

De seu pai, que te ama,

SJ

quarta-feira, julho 03, 2024

 


Lila, meu amor. 

Hoje é seu dia - "Íris azuis atitós, só podiam ser de você"... Lembro-me nesta manhã fria da música cuja letra é do João Miguel Valencise. Ensaio entoar a melodia, ainda é muito cedo, todos dormem na casa, e ela é doce, alegre, feita de um fraseado franco que o caminhante solitário assovia na madrugada, descendo a ladeira rumo ao seu futuro. 

Hoje é seu dia, sempre será o seu dia, o primeiro dia de toda uma era do pai-menino que acorda um dia com um bebê lindo no colo. Um bebê doce, frágil, feito a pétala no sereno, a teia de prata na luz da manhã, o broto de feijão no colo de algodão feito pelo menino. 

"Íris azuis atitós, só podiam ser de você". 

Você é única, a primeira, até o fim dos fins será a primeira, única, indisputada, vitoriosa, suave. 

Nós viemos a esta terra para cumprir sabe-se lá o quê, mas chegamos com força, vontade, amor. 

Eu te amo princesa linda e doce. Eu te amo desde sempre e para todo o sempre. Amém.


sexta-feira, outubro 29, 2021

Eu veio, mami, ainda bem que eu veio...”

Quando lá atrás, você era ainda muito pequeno (acho que tinha 3, 4 anos) aconteceu um evento aparentemente sem importância: ao meu lado, observando extasiado um trator em atividade, você gritava excitado - “ainda bem que eu veio, mami, ainda bem que eu veio...”.

Jamais nos esqueceremos daquele dia chuvoso no Sítio de Patrocínio Paulista. A frase nunca nos saiu da cabeça.

Entretanto, mal sabíamos, àquela altura, que você expressava um mistério profundo e verdadeiro. Não éramos nós, somente nós, seus pais, que nos regozijávamos com a sua vinda a este mundo; era antes de tudo você, querido filho, que nos revelava, na alegria de um dia chuvoso, a verdade das escolhas que definem a vida de cada um de nós nesta pequena família.

Você nos escolheu, Pedro. Mirou uma família simples, um pai metido a intelectual, constelado de livros, cheio de projetos sonhadores, músico, cronista distraído, apoiado por uma mãe suave e amorosa, zelosa, carinhosa. Você nos veio assim, Pedro, chegou-nos como um inesperado broto formoso em nosso jardim. Eis que amanhecemos um belo dia e você estava ali, delicado e suave. A partir de então já não era mais possível imaginar a vida sem você.

Vivíamos então sob o pálio de uma bandeira – “Amor, Justiça e Arte”... Era assim que nos víamos, era dessa forma que buscávamos iluminar nossa jornada, dar sentido aos encontros imponderáveis desta vida. Sob este lema você nos chegou, Pedro, como uma bela doação da vida.  

Nos lembramos de como nos ocorreu o nome Pedro. Nome forte, pedra, rocha... Petrus! O seu nome evoca o espírito de homens que suportam o peso dos desafios que a vida impõe a cada um de nós. Acho que foi o papai que sugeriu o seu nome. Ele dizia que um nome é um grave mistério que se revela ao longo de toda uma vida. Muito do que projetamos sobre os ombros de nossos filhos é o legado de tudo aquilo que de melhor recebemos de nossos pais. Assim nos ligamos aos nossos ancestrais mais distantes, assim caminhamos nesta Terra dos Homens, assim deitamos sementes ao largo do caminho.

Você é assim, filho: forte, generoso, gentil, suave, inteligente. Olhamos para o jovem Pedro e hoje descobrimos, surpresos, um príncipe, frondosa árvore que se expande poderosamente em busca de sol e fortaleza. Ainda não se advinha como serão seus frutos, mas certamente eles virão, chegarão a seu tempo e serão doces, fortes, singulares.

Pedro, seus pais são o solo fértil sobre o qual você hoje se assenta. Você nos chegou assim, de mansinho, resultado de um lindo sonho do casal, ornado de bosques, um rio, tesouros e de um belo jardim. Chegará um dia, filho, em que se lançará à vida em busca de um lema, de uma bandeira, de um propósito nobre e justo. Lutará por “justiça, amor e arte” – como é o lema de seu clã, sua pequena grei. Defenderá quem injustamente sofra, alegrar-se-á com quem se alegra, pranteará com os que choram.

Deus queira, querido e amado filho, que chegue ao termo de seu caminho como quem iniciou essa nobre jornada - suave, amoroso, generoso e gentil.

Nós te amamos com toda a força de nossa alma.

Ainda bem que você veio, Pepo. Ainda bem!

Sérgio & Tânia.

terça-feira, maio 04, 2021

Quem nos ouve? Quem nos ouvirá?

“À noite, a razão dorme e as coisas simplesmente existem (...). O homem reúne os seus pedaços e volta a ser árvore calma”, disse Saint-Exupéry no “Piloto de Guerra”.

Que homens foram aqueles no final da II Grande Guerra? Que nos falam San-Ex e Dutertre nesta madrugada fria?

São como ecos de fantasmas que nos sussurram palavras incompreensíveis, um lamento triste e solitário na noite soberana.

— Quem nos ouve, quem nos ouvirá? — parecem clamar em lamento.

Meus companheiros, logo a razão descansa e a árvore calma e serena dominará a noite. Quem se importa com as coisas que simplesmente existem? (4/5/2021, 4h:01min.).





quinta-feira, março 05, 2020

Onde andam os putos?

Queridos!

É sempre uma alegria singela e verdadeira receber sua cartinha no final do ano. Abri-a agora, nas vésperas da nossa partida para NY, a acompanhar nossos filhos Pedro e Helena à escola americana onde concluem o high school.

A casa vai se esvaziando lentamente da algaravia alegre e estridente dos pequenos – agora adolescentes e já quase maduros para a vida nesta Terra dos Homens. O Thiago ainda remanesce conosco, já despontado, cá e acolá, dos traços de puberdade. Disse-lhe outro dia que aqueles pequenos frascos, delicadas ânforas que trazemos dentro de nós, deitaram uma misteriosa substância que nos transforma magicamente. Não encontrei melhor explicação para essas transformações substanciais que os antigos associavam aos ciclos hebdomáticos.

O nosso venerável El-Rei D. Duarte, de ínclita geração, já recolhia os ensinamentos da antiguidade no seu delicioso “Leal Conselheiro”. São os tempos climatéricos, com suas mutações alquímicas. Algo sobre isso escrevi aqui: https://sergiojacomino.wixsite.com/szarkion/jacques

Eu ando um tanto desnorteado. O Direito se “relativizou” e com isso vejo inaugurada e bem-estabelecida a “era-gelêisica”, com seu laxismo exegético, sua leniência lógica e complacência plástica e valorativa. Há uma espécie de tropismo irresistível que atua nas falanges judiciárias: “parece que o Direito somente vai se ‘endireitar’ com a máquina” – pragueja o velho Dr. Ermitânio Prado. As investidas do Dr. Ross e do Watson prometem uma espécie de retorto à racionalidade que nem os positivistas, em seus delírios mais usados, chegaram a cogitar. Dr. Pangloss redivivo nas paragens de silício.

De outra banda, nossa “Jerusalém eletrônica” estende suas pontes sobre os pobres diabos. Eis a “eterna repetição do mesmo” (essa tal “singularidade” macabra de que falam no Vale californiano). Abra o black mirror, e cá estamos lá, e acolá, em lugar-nenhum, fantasmagoricamente.

A vida não é fácil, mas é bela e maravilhosa. Vamos sobrevivendo, vencendo e sendo convencidos.

Não deixem de enviar as lindas cartinhas que me encantam e enternecem. Servem-me como estímulo e desafio: a simplicidade verdadeira é um extraordinário antídoto contra os simulacros que nos tornam insensíveis e estúpidos.

Onde se meteram os putos? Acham-se ocultos no buraco! https://sergiojacomino.wixsite.com/szarkion/buraco

Beijos
SJ

quarta-feira, agosto 14, 2019

A vida é uma longa estrada

Querida filha.

Mais uma etapa, outro degrau, um novo desafio. Quantos mais ainda virão? – perguntávamos - eu e sua mãe - nesta madrugada fria. Fazíamos um exercício curioso: paramos para pensar que os seus desafios se projetam e percutem em nossos próprios desafios. Há uma íntima relação entre o que ocorre na sua vida e o que nós experimentamos em nossas próprias.

Rimos da imagem de que estamos como que entrelaçados, amalgamados biológica e animicamente, e que, no entanto, sejamos essencialmente diferentes.

Há um entrelaçamento cósmico, esplêndido, maravilhoso, constituído de seres humanos únicos, singulares, como estrelas brilhantes que pulsam numa microgaláxia que se projeta no arco do tempo.

Puxa, Nena, parece que foi outro dia: aquela ruivinha arteira, cheia de energia, criativa, complexa, briguenta, você entrava de mansinho em nossas vidas – “lé... lé... lé...”. O pappi diz que nunca vai esquecer aquela chusma acobreada, enrolada no cobertorzinho, declamando um chorinho original que jamais ouvira em toda sua vida.

Podemos agora lhe dizer, querida filha, que desde então nada seria como antes em nossas próprias vidas.

Nos perguntamos: o que seria de nós sem a Nena? Mas que bobagem! Não há respostas a uma pergunta que não calha, que jamais poderia ser formulada e muito menos respondida. Você está aqui, ao nosso lado, e logo mais se desprende e vai experimentar este mundo complexo e perigoso. Pensar “o que seria se não fosse” é um raciocínio ocioso, sem sentido, embora tentador. Quer saber? nossas vidas seriam faltas, mancas, imperfeitas. O fato é que a nossa vida é plena, exuberante, linda e tão perfeita quanto possam ser os seres humanos nesta jornada sobre a Terra dos Homens.

Querida filha. Nós também fomos convidados a encarar com coragem cada etapa, a superar cada degrau, a ultrapassar cada desafio no curso da sua formação. Não foi fácil. Não foi simples. Mas queremos lhe confessar: foi lindo. Foi maravilhoso. Nos sentimos orgulhosos de suas conquistas, de suas aspirações nobres e verdadeiras. De sua inteligência brilhante. De sua generosidade e compaixão.

Agora uma nova etapa se inaugura. Divisamos um novo portal no horizonte e você está prestes a ultrapassá-lo. O que a espera do outro lado? Amor, o futuro é sempre imprevisível e nada há que se possa falar a respeito disso. No entanto, sabemos que um caminho de vida é como uma longa estrada que se projeta do passado rumo ao futuro. Ela serpenteia montanhas, atravessa verões e invernos, proporciona alegrias e tristezas, encontros e despedidas, rasga o futuro com ganas de chegar, deixa um rastro que não se apaga. Um caminho que provém de um lugar esquecido e remoto e que traz consigo a memória de si mesmo a iluminar o futuro. Somente podemos encarar com coragem e alegria os desafios do futuro se nos lembrarmos, a cada passo, da inscrição feita com tintas de ouro em nosso coração. Essa carta só pode ser lida e compreendida no curso do caminho.

Querida Nena, conforte-se com a ideia de que o destino de uma estrela é o destino de todo o universo. Esta carta é inscrita com as tintas do coração e a sua compreensão deve se abrir como uma flor ao seu entendimento, iluminando o caminho de transição que agora experimenta.

Soaria estranho se lhe disséssemos que essa estrada parte de algum lugar de mistérios e se projeta para o interior de si mesma? Ainda lhe parecerá incomum a ideia de que uma viagem que se faça para o mundo lá fora pode ser o fruto de uma jornada que se iniciou para dentro de si?

Uma viagem verdadeira, livre de distrações, é uma experiência única, irrepetível, e que há de forjar o seu caráter, como o fogo purifica o ouro. Agarre-se à ideia de que cada encontro importante que ocorra nessa jornada será uma doação da vida. Seja, portanto, humilde, atenta, observadora. Aquiete-se sempre que puder e fique em silêncio reverencial. Observe que a manhã se faz de brumas e da saudade das estrelas, mas o dia se torna pouco a pouco radioso e pleno.

Querida filha. Nós te amamos com um amor infinito. Estamos aqui, na Casa Amarela invisível, uma casa de ouro e de diamantes, de sentimentos nobres e verdadeiros. Estamos firmes, fortes e confiantes. Quando atravessar a curva logo à frente, e então nos perder de vista, saiba que ainda estaremos aqui – firmes, fortes, confiantes. Sempre estaremos, o tempo não desfaz o que o amor verdadeiro constrói.

Vai ao mundo prová-lo. Ele haverá de fazer o mesmo consigo. Esteja em paz e que Deus esteja sempre com esta pequena estrela de uma pequena galáxia do universo!

SJ, TMCAJ, Casa Amarela, 14/8/2019.

sábado, janeiro 19, 2019

METRÔ - crônicas passageiras

Uma menina cega.

Sentei-me no assento reservado a idosos. À minha frente, bem à testa, diviso uma linda garota cega, com uma feição impassível, um rosto róseo, tranquilo, de linhas harmoniosas. Olho diretamente para os seus olhos e ela começa a piscar. Como um quasar. Desvio os meus, tímido. Fecho-os e fixo o semblante da menina cega. Penso que podemos nos enxergar sob a densa escuridão. Algumas estações adiante, abro os olhos e não a vejo. Saiu tranquila, suave, silenciosamente. Imaginei que me endereçava um sorriso, a menina cega. Sorri em retribuição e segui minha jornada pensando em tudo que se pode ver com os olhos fechados.

Yoga e as pombas mortas

Sento-me no mesmo banco todos os dias na estação Borba Gato. Gosto do vento e de ver as pessoas chegando e partindo. Ao meu lado esquerdo logo se acomoda um jovem. Olho de soslaio e vejo que desembainha um livro. Eu faço o mesmo. Abro o de Júlio Cortázar (Histórias de Cronópios e de Famas) na p. 76 - “Como vai, López”. Vejo que o jovem lê furtivamente sobre os meus ombros - “as ideias caem no chão como pombas mortas...”. Num gesto rápido, mas gentil, ofereço-lhe o livro aberto como um convite. Ele agradece estendendo-me um livro sobre yoga. Nisso o trem rasga a estação e avança sobre nós em estrondos e ventanias. Trocamos rapidamente os livros e partimos em silêncio rumo ao incerto fim de nossas vidas.

A Consolação de Dvořák

A estação Metrô Consolação é a mais impressionante de todas elas. Acha-se encravada na interseção das linhas verde e amarela. Postei-me na entrada do túnel ventoso e aumentei o volume do fone de ouvido. A ventania tubular, o rumor surdo da composição, gente apressada, o imenso outdoor da modelo e seus dentes escancarados, tudo rivaliza com a sinfonia n. 9 de A. Dvořák. Aumento o volume e emparelho o passo junto ao cardume de gente que erra neste estranho palco. Deixo-me levar, só, sem lenço, pensamentos e sentimentos. Sou moderno.

Sonhos plúmbeos

Ao lado, um vigoroso jovem, beirando os 30, os braços descobertos, dormita no assento preferencial. Posto-me ao seu lado. O que faz na vida? fisiculturismo? Guarda-costas de uma casa noturna? Com que sonha? A composição avança e ele cochila apoiado nos braços de uma mulher. Será sua esposa? Sua mãe? Uma amante dedicada? Ou apenas um braço amigo que o acolhe no trânsito intestino? O trem segue o destino previsível carregando os homens e seus sonhos imponderáveis.

Tristes trópicos

O que lê essa gente cansada? Como resiste e avança na leitura ouvindo a playlist condensada pela máquina? A menina folheia distraidamente o livro... Tiburi, vejo de soslaio. Que desânimo! Lá fora o sol tropical nos pesa como maldição.

Próxima estação

Pressa, azáfama, o livro na bolsa Billingham. Detive-me na catraca. “Foi suicídio”, sussurra a velha ao meu lado. “Um homem está debaixo do vagão”. Penso que na cidade a vida tem pressa para acabar.

Glaucoma

Uma mulher vigorosa senta-se ao meu lado e dispara: “é o glaucoma. Perdi a vista em menos de 48 horas”. Afundei no banco e resisti a uma comichão cruel no olho esquerdo.

Sincronia

O tempo e o espaço se abrem e revelam um mundo de sonhos nas tramas intestinas do Metrô paulistano. “Autodeterminação da própria imagem”, diz alguém logo atrás. O jovem lança o braço sobre nós e se agarra à alça de segurança. Parece querer expor garbosamente a sua tatuagem – um velho relógio com algarismos romanos. As setas projetam-se erga omnes, os números vazados num código vetusto e venerável. O relógio é um monumento arcaico. O que nos revela o jovem? Sonhos, medos, angústias inscritos na cútis. Memento mori! O tatoo é uma nótula pessoal, singular, um signo inscrito num vade mecum feito para iletrados. Como a esfragística notarial, o assinar em cruz. Penso que sou tabelião e rio. A vida é só a lavra infinita inscrita num livro inefável. Neste intervalo calham os ponteiros do relógio, tão certos como num átimo de eternidade. 

Olhares cruzados

Vou ao trabalho de metrô. Sexagenário, minhas pernas logo se cansam. Ao meu lado, jovens vigorosos se acomodam em assentos preferenciais. Aprecio suas tatuagens aplicadas aos borrões; escuto involuntariamente sua prosa frouxa. Nossos olhares cruzam como as composições que não param na estação. O trem avança e eu penso: “somos todos idiotas”.

O amor e a flor

Ler Santo Agostinho no metrô é uma aventura interior. Segundo o Bispo de Hipona, as flores possuem a carência essencial de que os homens as contemplem amorosamente. O amor-tropismo nos restitui, homens modernos, a uma essencialidade cindida. Estamos condenados ao amor e à dor. 

 

Tatuagens

Algumas são tribais; outras meras garatujas. Outras são como que paisagens urbanas, portadas por seres que erram nas reentrâncias do túnel ventoso. Dedico-me a ler e a interpretar cada uma. São histórias fantásticas - o crescente e a mão de Fátima, estrelas solitárias, serpentes espectrais, cavalos e unicórnios, dragões, índio apache, folha de cannabis, borrões esfumados

Pecunia non olet

Uma senhora passa apressurada e deixa cair uma moeda que rodopia, dança e descansa no piso frio. Não resisto: paro, agacho-me, e a recolho. A senhora manda um sinal aborrecido, fazendo ver que não se importa nem com a moeda nem com a mesura. Segue apressada sabe-se lá para onde. Fico eu com a moeda na palma da mão,  lembrando-me das moedas romanas. Este bem fungível representa uma fração do trabalho. Só por essa razão eu a guardo no bolso, respeitosamente. 

As coisas simplesmente existem

“À noite, a razão dorme e as coisas simplesmente existem (...). O homem reúne os seus pedaços e volta a ser árvore calma”, leio Saint-Exupéry em “Piloto de Guerra”. Que homens foram aqueles no final da II Grande Guerra? Que nos falam San-Ex e Dutertre nesta manhã cinzenta e fria? São ecos de fantasmas que nos sussurram palavras incompreensíveis, um canto triste e solitário que ressoa nas entranhas. Quem nos ouve, quem nos ouvirá? — parecem clamar em lamento. Penso que logo a razão descansa e a árvore, calma e serena, se revela majestosa à noite misteriosa. Quem se importa com as coisas que simplesmente existem?



quinta-feira, outubro 25, 2018

Anjos e bestas

Acordei às 4h. da manhã com um gosto amargo na boca. "Deve ser o fígado", pensei. Fiquei ruminando ideias imperfeitas.

Você sabe que falo comigo mesmo. Às vezes discutimos em silêncio enquanto caminho pelas ruas da cidade. Dou uma risadinha e penso que isso tudo é uma grande besteira, discutir em silêncio... que idiota!

No fundo eu sabia que o amargor se devia a outra coisa. Dormi mal, acordei mal. "Era necessário tudo isso?" - desafia o velho Ermitânio enquanto lança aquele olhar severo no espelho. Agora mesmo cofia a barba e as cãs. "O que sabe de minhas necessidades essenciais, Velho?" - disse-lhe irritado. Silêncio. "Preciso cortar o cabelo", tergiversei e voltei para a cama. Ele que fique a sós, censurando a si mesmo!

Pensei no controle remoto da TV ao lado, ao alcance da mão. É um botão de pânico. Quando tudo parece acinzentar-se abro a janela de plasma e me deixo inundar de cores e de palração sem fim. Mas vou acordar a mulher, largo o controle e tomo um gole d´água. Depois viro, reviro. Volto, revolto, o coração se acelera. "Era necessário tudo isso?".

Levanto-me. Experimento a dureza do mundo, finco os dois pés no chão. "Friaca do cão!". Tomo impulso e saio para o vestíbulo.

O Velho está ao meu lado. Não sente frio, não sente nada. Nada. E no entanto, o amargor na boca, o pulso acelerado. "À distância tudo parece pequeno, não é mesmo?" - diz. O velho arma uma cilada, eu sei. Sempre sei. Suspendo a respiração. "É a insignificância pregando uma peça. Não se iluda. A distância não diminui nem magnifica nada...". Maldito espelho. A casa é uma cidade perdida e em vez de tesouros encontro espelhos.

Vejo de soslaio o Velho, à espreita.

segunda-feira, julho 09, 2018

Uma outra viagem

Hoje saímos para Fernando de Noronha com uma novidade: partimos desfalcados de dois filhos; a Nena partiu ontem para a Inglaterra e o Pepo está Milão. As férias serão daqui pra frente uma diáspora familiar.

Pretendo registrar esta pequena viagem aqui neste blogue. São pequenas nótulas frouxas que hão de servir para uma leitura prazerosa no futuro.

(Para variar, antes de qualquer viagem de férias fico acometido de alguma moléstia. Novamente a tosse me ataca sem misericórdia)

terça-feira, setembro 12, 2017

A nau amarela


Há coisas que v. não sabe. Nem deve saber. Apenas deve confiar que o seu pai, a cada novo dia, se levanta da cama e encara a vida como quem arranca em mar aberto com uma simples canoa.

O que me leva a esta aventura, dia após dia?

Esperança. E no fundo desta esperança a fé – fé na vida, nos homens, na família, fé em você e em todos nós que vivemos aqui nesta casinha amarela de amor.

Você sabe que somente eu, e mais ninguém, deve governar o timão desta nau e arrostando o imenso mar que é a vida.

Há dias que o mar é tranquilo. Suas ondas são suaves e acolhedoras. Navego com alegria solar. Outros dias as ondas se encapelam, a espuma tinge o espelho d´água e um verde profundo se espessa e revela um caldo insondável e temível, no fundo do qual vislumbro os meus fantasmas, encaro os meus medos.

Sigo navegando, contudo. Galgando, uma a uma, as vagas imensas que se formam como paredes e abalam o corpo desta nau sensível e frágil. E sigo navegando.

Ontem foi um dia proceloso. O mar se agitou em ondas gigantescas, o céu se tornou uma densa camada plúmbea e eu perdi momentaneamente o rumo. Retornar ao porto foi muito, muito difícil.

Trouxe no corpo a memória da tempestade. Na boca, o gosto da batalha. No andar hesitante o cansaço da peleja. Foi uma pugna difícil, mas tão difícil que só encontrei remédio e conforto na certeza inabalável de que esta é uma batalha que se trava consigo mesmo. Uma guerra contra o medo interior, contra as incertezas da vida.

Mas um guerreiro não teme o próprio medo! 

Sei que talvez tenha tangido cordas ocultas e suscitado em seu coraçãozinho um sentimento de adversidade e afastamento.

Você é minha vermelhinha linda e o encanto da minha vida. Não deveria ter permitido que se recolhesse sem uma reconciliação.

Lembre-se que nossas alianças são eternas. Formaram-se antes mesmo de chegarmos ao útero de nossas mães e avançássemos na marcha sobre esta Terra dos Homens. E nada, nada haverá de destruir o amor eterno que nos une.

Te amo, filha. Perdoa a aspereza de seu pai.

São Paulo, 12/9/2017.
Papi

terça-feira, janeiro 06, 2015

Crepuscular

Acabei de chegar das montanhas e já me preparo para a praia - província que me fustiga o corpo e a alma.

Estou numa correria só. O só pensar no sol da Bahia sombreia-me a alma. O duro é aguentar a fitinha de Nosso Senhor do Bonfim. Não sou bom-fã do Bonfim-colorau, atavio de cobras-corais enrodilhadas no punho feito galáxias de boa morte.

Muitos problemas neste início de ano. Restos de sombra num coração quarado - feito manta de inverno no varal. Ah... estes varais ensolarados. São mantras ao vento. Pequenas cortinas postas diante de olhos cansados das sendas partidas de sol a sol. "Acenda, Senhor, esta alma peregrina com o santo remédio das lâmpadas eternas! Anjo, derrama em caldas os mantos diáfanos de dobras indefectíveis". Mantra dos mantras, a oração de um menino há de se converter no pleito das águas rumo ao oceano. 

Sempre chegamos ao termo final. Quintal das almas: que seja - assim seja! - um bom fim. Senhor do Bonfim, bom-bom fino do fim, faz-me a fineza de estreitar o abismo entre o não e o sim. Consintas a síntese curativa de mim.

Cruzamento de todas as estradas, encruzilhada dramática, és cerzido de histórias, de dores e de alegrias. Carma primordial, meu trabalho de parto haverá de ser a partida tardia, compartida por anjos e demônios. Livrai-me, Senhor, com a inteira liberdade que me confiastes.

Enfim, não me resta mais que abismar. Abrumar. Abespinhar-me feito pinhão cravejado em cachos dourados de inverno - oh versão de verões! bordados frágeis de pétalas topázio e de bafio crepuscular. 

segunda-feira, agosto 25, 2014

Outras estações para o pequeno Thiago Jacomino

Thiago.


Neste comecinho de segundo semestre de 2014, a professora Almut Lenk nos confiou uma tarefa muito bonita: confeccionar um pequeno caderno de poemas e desenhos sobre a passagem das estações do ano para lhe presentear.

Durante toda uma semana, o papai acordava pela madrugada e ficava cofiando a barba, pensando, pensando, pensando... O que poderia fazer para tocar suavemente essa pequenina alma de artista na véspera da primavera?

Sou mal poeta. Um historiador distraído. Quiçá um diligente escrivão do feito, do confeito e do desfeito. Confesso que mal reparo no raro e ainda me desamparo nesta angústia de árvores que se dobram como cobertores numa tarde de outono.

Pensei num poema. O primeiro deles está ali, logo embaixo. Perdido, pobre; sem rima, sem rumo. É a revolta dos meninos algaraviados que se apruma na declamada primavera-outono das idades e das gramáticas. 

A Mâmi logo torceu o nariz. "Humm... Coisas Jacominianas!" - sentenciou.

Ela tinha razão. Sempre tem!

Pensei, então, em haikais. Perguntei-me: seria capaz de resgatar como que pequenas cápsulas de imagens fugidias, lembranças da minha infância no Parque D. Pedro II?

Sabe, Nini, um dia fui menino. Arrebatei-me com o tapete de chocolates do Parque depois da chuvarada de verão; deixei-me estar ao rés do chão, quieto, entre besouros, aranhas e moedas perdidas por gente esquecida. Fui visitado por estranhos sentimentos que não têm nome. Coisas de que já não se lembram os velhos. 

Mas eis-me aqui, filhinho! Um velho-menino, cofiando, cofiando, desconfiado. Mas sempre fiado na sabedoria dos anjos.

Seu pai.



I

Primavera

A madrugada
lança gotas e alcança
a primavera.

~~~~*~~~~

Jacarandás bordados.
Mimosos lilás,
Sol desnuda e revela.

~~~~*~~~~

A alameda fia,
a lã na teia suave,
aquarelada.


II
Verão

As cigarras encantam,
olhos se incendeiam.
campânulas ao vento.

~~~~*~~~~

O rio trasvasa -
terra achocolatada.
Sol-chuvarada.

~~~~*~~~~

Essências sobem,
são as gotas que descem.
Chuvas de verão.



III
Outono

Estrela d´alva,
no céu logo desmaia
no espelho d´água.

~~~~*~~~~

Desde o céu se anuncia,
cor fugidia.
Olhos de adoração.

~~~~*~~~~

Nini, pequeno.
Velhas árvores dobram
Sombras e sonhos.



IV
Inverno

Ventou na noite
lágrimas de topázio.
Quintal de cristais.

~~~~*~~~~

É madrugada.
O céu embaça e passa.
Lua caiada.

~~~~*~~~~

Neblina desce
sobre o parque invisível.
Não vi e visse!

V
Natal

Gotas na calha,
um tamborim suave.
Natal sonhado.

Casa no parque.
A parede encarnada,
vela o menino.

Escadas de luz.
A cidade em gala.
Pobre menino.

~~~~*~~~~

VI
Páscoa

Ovos sortidos,
No recanto de cores.
Tantos coelhos?

Ovos ocultos,
desdobras de sol a sol.
Sítio da Tita.

Avôs e avós,
doce cordão entre nós.
Ovos de páscoa.

~~~~*~~~~

VII
São João

A lamparina
rebrilha, só, esquiva.
Quem sobe, desce.

Balão-almofada
baila na noite infinda.
Estrela farta.

Garoa fina,
lã no casaco cinza.
Fogueira finda.

~~~~*~~~~
VIII
Micael

É luz divinal
que traduz e revela.
Claro mistério.

domingo, agosto 24, 2014

Primavera

A primavera dos meninos
foi um dia a primavera dos seus pais.
Vendo-o, meu pequeno botão,
revejo as alamedas de um grande parque,
bordadas de imensas árvores,
generosas: deitam pétalas lilases
sobre a trama de pedras orvalhadas,
no chão úmido e cravejado de luzes.

A primavera dos meninos,
foi um dia a primavera de seus pais.
Em que as moedas rolavam sobre a relva,
desapareciam como que por milagre
e ressurgiam misteriosamente sob o travesseiro.
Que aventura era subir às árvores,
no ponto mais alto em que as camélias,
brotavam como nomes e perfumes
brancas, rosas e fúcsias.

A primavera dos meninos,
Foi um dia a primavera de seus pais.
A roda que nos levava em rodopios,
às estrelas, às borboletas na árvore,
às trepadeiras, brincos-de-princesa e jacarandás.
O balanço que nos arremessava aos céus,
Soltos como pássaros, livres para ir e voar
E retornar
à primavera dos meninos,
Que um dia foi a primavera dos seus pais.

segunda-feira, dezembro 23, 2013

NINI e suas histórias

O Nini deitou-se comigo à tardinha e perguntou à queima-roupa: de onde vem e para aonde vai o dinheiro que todos entregam comprando e todos recebem vendendo?

Sem esperar a resposta: o que tem dentro do dinheiro?

Ainda na rede, contei-lhe a história do pequeno Pierre.

Pierre era um menino que o papai conheceu ainda quando criança.

Pela manhã, logo cedo, o pequeno saía ao quintal e logo se punha de cotovelos a vigiar o imenso tesouro que a noite lhe trazia - pequenos diamantes incrustados nas folhas da relva e que brilhavam intensamente sob a luz do sol.

Era rico e sabia guardar seu tesouro com seus olhos cristalinos.

Ao meio-dia esquecia-se de todo o resto e era só um menino vadio - ele e o vento que lhe acariciava o rosto sob a sombra das mangueiras carregadas.

Perdia-se sem um único fio de pensamento.

À tarde, dizia a mamãe, era preciso acudir os rubis que ardiam sob a luz violácea que cariciava pencas de alamandas e ipomeias com pétalas e folhas cravejadas de besouros iridescentes.

Ah... Pierre era um menino feliz.

sábado, dezembro 10, 2011

D. Anéris

Na sexta-feira estive na saída das aulas. Era o último dia da D. Anéris à frente do nosso jardim.

Disse para a Blyan (para quem não sabe, a Tânia), parafraseando Milton Nascimento: "o trem que chega é o mesmo trem da partida"...

Cumpria dizer algo para nós mesmos. Como vocês sabem, ela, a Blyan, chora na chegada, na partida... e se bobear, soluça mesmo no percurso, dependendo da paisagem!

Compreendemos, naquele momento, que a vida é um contínuo movimento. Chegamos e partimos, sempre. Se é possível dizer-se isso, chegamos e partimos et pour cause, continuamos, cada vez mais, nós mesmos! Uma partida é sempre a chegada a nós mesmos por intermédio do outro que parte...

D. Anéris amorosamente insinuou-se em nossas vidas com a tranquilidade de um grande rio que avança sobre a planície.

Nosso primeiro contato foi logo na entrevista. Nunca vou me esquecer daquele olhar profundo, atento, suave, que logo revelaria a vocação deste historiador distraído. (Trazia um livro de história antiga no colo. Nunca se sabe quão "emocionante" vai ser uma entrevista escolar... Ela logo percebeu e registrou que havia lido aquele autor quase esquecido). Bingo! A partir dali, nunca mais deixaria de me encantar com a sabedoria daquela mestra. D. Anéris foi a face revelada dos anjos que guarnecem aquela província do Espírito.

Há certos detalhes que elevamos à categoria de verdadeiros signos na tentativa desesperada de emprestar um sentido humano a essas estranhas coincidências da vida. Nossos encontros nunca são vazios - ainda que não consigamos penetrar no mistério que fundamenta cada chegada e cada partida. Um bom livro de história clássica sempre poderá ser um bom motivo!

D. Anéris segue serena e tranquila a trajetória de um grande Rio. Penso que já não importam quantas chegadas e partidas, tantas idas e vindas. Nossa humanidade se confirma nessa troca essencial que há de durar até quando deva durar.

E já sobre isso me calo.

domingo, março 13, 2011

Tocoveleiras

O pequeno Nini estreia a sua nova bici, azulíssima, brilhante, como devem ser todas as coisas do Nini. Ele tem uma especial capacidade para gostar das coisas belas.

Ele não se continha. Queria sair às ruas para curtir a nova magrela, mas a chuva parecia não arrefecer neste final de semana de chuvas estivais.

Depois de descer a Duarte Moniz Barreto a toda velocidade o pequeno se deu conta de que o papi o divisava com um olhar de censura.

- Papi, esqueci das tocoveleiras...
- O quê?
- ... esqueci das tocoveleiras.

Ele queria certamente dizer "cotoveleiras" mas o que saiu foi essa palavra engraçada, dentre tantas outras que eu ainda vou registrar aqui.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Guintor, el perro pampero


Guintor. Isso é nome de cachorro? É sim!

Começou assim: a Lelê encontrou um cão vagando pelas alamedas do Hotel. Com sua especial capacidade para lidar com os animais, atraiu-o para perto de todos nós e lá estava ele, folgando como se nos conhecesse desde pequeninos, o Guintor.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Vésperas

Hoje fomos ao mercado sem os meninos.

Era necessário comprar os últimos apetrechos para a viagem que se aproxima.

Fará frio? Vai nevar? Em Buenos Aires faz calor - a Blyan viu no weather report.

Nós vamos partir em breve para uma viagem inesperada. Não programada. Não planejada.

O que nos espera?

sábado, maio 01, 2010

Pedro e nós


Este foi um dia importante. O Pepo descobriu como dar nós em cadarços.

Lembro-me do meu primeiro nó. A mágica das mãos ágeis e sapientes, dígitos prestimosos, conduzindo o olhar desconfiado, essa imagem ficará como uma lembrança indestrutível.

Ver o Pedro percorrer os mesmos caminhos leva-me a compreender que a humanidade caminha sobre os passos dos que lhes antecederam. E assim, somente assim, as crianças podem atingir o que se acha mais além, onde jamais sonhamos pisar.

O dia foi 29 de abril de 2010.

Meu Pepo, eu também caminho certo e seguro sobre os seus passos. Venho do futuro acolher você, meu pequeno Pedro, com meu amor e carinho. Bem sei aonde levam os seus passos!

quarta-feira, março 10, 2010

Eu, ela, ele: nós

Nós - mais do que górdios mistérios
que se encerram bem antes
do nó, do novelo, do novíssimo:
sempre fomos de mil formas;

Nós - que nos amamos,
entre anônimos errantes,
antes dos entes e das formas,
antes mesmo de informados;

Nós - que emprestamos sem-sentidos
como estrelas que despedaçam
pétalas, pólux:
Nós em si mesmos;

Nós - que descendemos
em altares velados e esquecidos
e nos encontramos nas paralelas,
na quadratura dos círculos;

Nós - hoje somos voz.
Oração em silêncio.

Nós, antes de todos vós,
ultrapassamos o tempo verbal!

(a propósito de Amélia, Armando e Sérgio Jacomino).

domingo, março 08, 2009

Encolhendo-me

Revolta a manhã iridiscente! 

A Botica se fechou
em séculos de mistérios. 
A torre transubstanciou
suas entranhas. 
Pedras rumoram um código indecifrável. 
Encontrei-me por aí!

Algo ocorre nas esferas de El Escorial
D. Felipe II dorme um sonho de perros negros
Sofre no azufre!

Algo de nós fica quando partimos: 
nos outros, nos campos frios, na Botica, 
na biblioteca que se ordena ao revés.

Chego a nascer, chego a nascer. 
Uma estrela sempre brilha antes de nascer!

Sou um livro sendo escrito desde a minha morte.

Volto valente para diante 
e recolho o diamante
que brilha e significa.

Dialógico:
- Quem sabe nos encontremos ontem? 
- Para você está bem às 8h?

Leio-me desde o futuro 
e encontro o passado imprevisível.

No início era o vírus. 

Própolis e enclisópolis.

Um grande felino se acomodou na garganta. 
Própolis é próprio da cidade gutural!

Madri se acende com candeias tímidas. 

A noite se fecha 
como a barriga de um burro.


segunda-feira, março 02, 2009

D. Martina

D. Martina clamou o seu nome solenemente – “Helena Corrêa de Jacomino”.

Aquele chamamento fez vibrar as minhas cordas interiores; quase diria que, por um breve instante, se produziu em mim um poderoso acorde, tríade perfeita. Sim, v. estava escolhida e acolhida! Meu coração soube antes mesmo que pudesse entender inteiramente o movimento.

D. Martina - este ser abençoado - haverá de conduzi-la na estrada da vida. Soube, no mesmo instante, que um encontro verdadeiro ocorrera. Meu coração descansou.

Penso que o mais significativo desse encontro, querida Nena, é que v. foi escolhida e acolhida, sim, mas, de certa forma, creio que também elegeu e acolheu à D. Martina.

O sentimento que ainda hoje tenho desse formidável encontro é que você possui a chave que pode abrir as portas daquele coração e dali extrair o que só um verdadeiro encontro de almas pode oferecer. Algo que somente ela pode lhe ofertar.

Os encontros nesse mundo imenso de coisas e de gente são, no fundo no fundo, a oportunidade de uma grande reconciliação!

Escolhendo-me

Para quem entende com o plexo:
esqueci-me do que não se (esquece e lembra)
como uma só nota grávida de todas as soltas.

Cármen lembra carma que lembra calma
que lembra o que não se lembra
e me põe assim:
cálmico.

Madri me espera fria.
Deus sabe como sou homem o suficiente para respeitá-la.
Mas haverá de se abrir
como uma flor carmim.

Estrela carmela,
erra entre os muros tardios.
Madri nasce
como uma pequena estrela carmelita.

Meus filhos clamam: canção da cansação.
Minhas cãs resistem!

Rudolf Steiner me tem pelo suspensório da alma.
Ressuscitando velhos temas.

Sucinto, eu?
Sinto muito: estou suspenso no ar...
errar é a maior empresa humana!
Melhor que errar é ser rarefeito.

Suscitando dúvida.
Termo equívoco.
Melhor seria:
ressuscitando o Amor!

A manhã metalúrgica me pesa como as entranhas da terra.
A manhã nasce e não diz a que veio.
Vejo o velho que me vê e diz:
que cara de nenê!

Saio às ruas.
O que mete medo
é a sombra
que
medra.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Portal

A passagem pelo portal do 1º ano foi uma experiência tocante para toda a família – especialmente para o papi e para a mãmi.

Saímos de bicicleta pela manhã em direção à escola. Nessa época, o cesto da bici ainda acolhia com certo conforto a minha pequena Nena.

Mas aquele dia era especial e mal podia saber as grandes emoções que ainda me esperavam...

A cerimônia da passagem pelo portal é uma experiência simplesmente inesquecível. Algo que deveria ser vivido e experimentado inteiramente por você, querida Helena.

Estávamos, eu e a mãmi, como que paralisados, em estado de suspensão, aguardando ansiosamente o chamamento, a vocação de seu nome.

Quando afinal foi chamada, eu também, inesperadamente, me senti arrancado do conforto da cadeira, abalado em minha vida sem surpresas, e me vi ultrapassando os limites daquele termo mágico, rememorando, emocionado, os ritos de passagem que eu mesmo experimentei ao longo de toda a minha vida.

Fincado como poderosos eixos no tablado, descerrando as portas para um espaço inefável, ali estava o portal à sua espera - soberbo, majestoso, impassivo.

V. estava pronta, meu amor. Desgarrou-se de nós e subiu as escadas lépida e segura, pronta para enfrentar mais uma etapa de sua pequena vida. Fiquei profundamente emocionado pela maneira como soube ultrapassá-lo com grandeza, coragem e dignidade. Vi como lançou-se rumo ao desconhecido com energia e determinação.

Quedei-me em silêncio. Uma estranha onda de nostalgia me invadiu. V. partia para uma nova etapa da viagem mágica e misteriosa neste mundo dos homens.