terça-feira, abril 14, 2026

De onde veio? Para onde foi?


A gente não sabe nada a respeito deles. De onde vêm? Para onde vão ao fim desta jornada?

O que fica é a história comum da família, entretecida na diuturnidade de uma convivência amorosa na Casa Amarela.

Chiara se foi. Dormia um sono sem sonhos. Profundo. Derradeiro. Ao seu lado, no momento terminal, a nossa família uniu-se a ela para um adeus amoroso e agradecido.

Foram 14 anos de pura alegria, traquinagens, reinações e artimanhas. Nossa cachorrinha linda se foi às estrelas.

Tutu. Tutuila. Ismuleca. ⁠Isminina. ⁠Ismu. ⁠Ismuzinha. Kiaretmann... 

Quantos nomes, tantos apelidos, carinho e ternura. Ainda ouço a Blyan chamando-a: "Tutu...  Vem Tutuila...". Ela já estava surda, nada ouvia, batíamos palmas para chamar-lhe a atenção e ela vinha de mansinho, abanando o rabo, solicitando carinho e petiscos de naine (carne).
Chiara foi uma cachorrinha levada. Arteira. "Fazia artita", como dizia a minha pequena Nena. Ela aprontava das suas. Lembro-me dela correndo atrás das crianças e mordiscando suas canelas. Era ágil, ninguém lhe vencia nos cercos estratégicos que fazia. Certamente um comportamento ancestral da espécie. 

Nunca soube a razão pela qual surrupiava e enterrava as meias dos meninos no jardim da Casa Amarela. Acho que entesourava o perfume da matilha — um velho instinto, desses que o tempo não apaga, confundindo afeto, posse e memória.

Outra feita, acho que foi num desses natais da Casa Amarela, dias perdidos num canto feliz da memória, e a Tutu conseguiu abrir as janelas da cozinha para abocanhar o peru que dormitava no canto da mesa. Danada. A vovó teve que ajeitar o acepipe para servi-lo mais tarde à família. Reformado. Ela adorava abrir portas, janelas, e quando não conseguia, roía os beirais, o que deixava a mamãe enfurecida. Fazia isso nas tempestades. Ela odiava os trovões e ficava apavorada em dias de borrascas. Sempre tínhamos que acolhê-la nessas ocasiões. Tremia de medo, a Tutuila. 

Tutu adorava bolas. Era goleira. Disputava com os meninos da rua. Postava-se junto à parede e saltava de forma ágil, abocanhando a bola em pleno ar. Era perfeita goleira. Não deixava passar uma. Ah. Tutu, que saudades. 

Os filhos do Antônio, nosso guarda da rua, Leonardo e Caíque (o Faísca), passavam horas com ela. Passeavam pelo bairro de bicicleta, ela os seguia sempre atenta, sempre curiosa. Chiara foi a cachorrinha que os entretinha durante os dias de férias.

Quantas vezes foi conosco para o nosso sítio em Patrocínio Paulista. Ia tranquila, nunca nos dava trabalho, adorava passear, pedia para beber água e fazer xixi. 

No dia 11/4/2026 ela amanheceu tristonha. Não se levantava do cantinho dela. Não aceitava comida, não pudemos lhe dar os remédios. Resolvemos levá-la a um hospital veterinário, precisava fazer uma tomografia. Aproveitamos para lhe dar um certo conforto. Respirava com dificuldade, estava abatida e triste. Colocamos a Chiara na sua caminha e fomos no Civicão — eu, o Pedro e o Thiago — ao Hospital Veros, na Brigadeiro Luis Antônio. Ela foi em silêncio. Diz o Thiago que a Tutu lançou um olhar para ele e lambeu sua mão. Era sua matilha, despedia-se do Titi... Ele chorou.

Chegamos ao Veros e, ao levá-la para o pronto-socorro, ainda abanou o rabo para nós. Não lhe faríamos mal, ela sabia. Ficou internada. Passou a noite toda entubada. Sentia falta de ar, o sistema respiratório já estava irremediavelmente comprometido por um mal insidioso, e os veterinários resolveram abreviar sua estada entre nós. 
No dia 12/4/2026, quando completaria 14 anos, 3 meses e 22 dias (ela nasceu 21/12/2011), reunimo-nos ao seu redor e vimos a estrelinha se apagar lentamente, deixando-nos tristes e vazios. Todos saímos do hospital transformados. Algo mudou profundamente em nossas vidas. Não sabíamos ainda o quê.

A Blyan escreveu num canto qualquer da internet: 

A Chiara já estava velhinha e cumpriu o seu ciclo com muito amor.

Despedimos dela juntos, mas cada um de nós sentiu e viveu a partida à sua maneira. 

Para mim a partida encerra uma fase muito especial  a infância e até mesmo a adolescência dos nossos filhos. São tempos que não voltam mais. As brincadeiras, o bolo quentinho no final da tarde… a confusão em forma de alegria. As crianças correndo atrás dos cachorros, os cachorros correndo atrás das crianças... 

O mais importante é que sejamos gratos pelos ciclos que se encerram. Quando um ciclo se fecha, abre-se outro novinho para sentirmos e nos alegrarmos. Que a vida possa ser celebrada todos os dias!

A Nena disse:

Chiara. Crescer ao seu lado foi um privilégio raro. Você foi amor em forma de presença, de olhar e de silêncio que conforta.

O Pepo encerrou-se num silêncio hermético, profundo e doloroso. O Nini chorou. Não imaginava o quanto sentiria a falta da cachorrinha.

Eu sou imensamente grato à Chiara. Ela nos alegrou e doou um amor incondicional à familhinha que esteve sempre junta e vibrante a bordo desta nau. Com ela singramos o grande mar da vida.

Este livro se encerra no exato momento em que a Chiara se despediu da familhinha da grande Casa Amarela. Demo-nos conta de que a sua partida encerrava um ciclo de aventuras, alegrias, reinações, em que a infância e a adolescência completavam uma bela etapa de nossas vidas. Abrem-se as portas para novas aventuras, novos desafios, outras chegadas e partidas. 

Assim é a vida, meus queridos filhos. Um novo capítulo se inaugura no grande Livro da Vida.

Nenhum comentário: