Uma menina cega.
Sentei-me no
assento reservado a idosos. À minha frente, bem à testa, diviso uma linda
garota cega, com uma feição impassível, um rosto róseo, tranquilo, de linhas
harmoniosas. Olho diretamente para os seus olhos e ela começa a piscar. Como um
quasar. Desvio os meus, tímido.
Fecho-os e fixo o semblante da menina cega. Penso que podemos nos enxergar sob
a densa escuridão. Algumas estações adiante, abro os olhos e não a vejo. Saiu
tranquila, suave, silenciosamente. Imaginei que me endereçava um sorriso, a menina cega. Sorri em retribuição e segui minha jornada pensando em tudo
que se pode ver com os olhos fechados.
Yoga e as pombas mortas
Sento-me no mesmo
banco todos os dias na estação Borba Gato. Gosto do vento e de ver as pessoas
chegando e partindo. Ao meu lado esquerdo logo se acomoda um jovem. Olho de
soslaio e vejo que desembainha um livro. Eu faço o mesmo. Abro o de Júlio
Cortázar (Histórias de Cronópios e de Famas)
na p. 76 - “Como vai, López”.
Vejo que o jovem
lê furtivamente sobre os meus ombros - “as ideias caem no
chão como pombas mortas...”. Num gesto rápido, mas gentil, ofereço-lhe o livro aberto
como um convite. Ele agradece
estendendo-me um livro sobre
yoga. Nisso o trem rasga a estação e avança sobre nós em estrondos e ventanias.
Trocamos rapidamente os livros e partimos em silêncio rumo ao incerto fim de
nossas vidas.
A Consolação de Dvořák
A estação Metrô
Consolação é a mais impressionante de todas elas. Acha-se encravada na
interseção das linhas verde e amarela. Postei-me na entrada do túnel ventoso e
aumentei o volume do fone de ouvido. A ventania tubular, o rumor surdo
da composição, gente apressada, o imenso outdoor da modelo
e seus dentes escancarados, tudo rivaliza com a sinfonia
n. 9 de A. Dvořák. Aumento
o volume e emparelho o passo junto ao cardume de gente que erra neste estranho
palco. Deixo-me levar, só, sem lenço, pensamentos e sentimentos. Sou moderno.
Sonhos plúmbeos
Ao lado, um
vigoroso jovem, beirando os 30, os braços descobertos, dormita no assento
preferencial. Posto-me ao seu lado. O que faz na vida? fisiculturismo?
Guarda-costas de uma casa noturna? Com que sonha?
A composição avança e ele cochila
apoiado nos braços de uma mulher. Será sua esposa? Sua mãe? Uma
amante dedicada? Ou apenas um braço amigo que o acolhe no trânsito intestino? O
trem segue o destino previsível carregando os homens e seus sonhos
imponderáveis.
Tristes trópicos
O que lê essa gente
cansada? Como resiste e avança na leitura ouvindo a playlist condensada pela máquina? A menina folheia
distraidamente o livro...
Tiburi, vejo de soslaio. Que desânimo!
Lá fora o sol tropical nos pesa como maldição.
Próxima estação
Pressa, azáfama, o
livro na bolsa Billingham. Detive-me na catraca. “Foi suicídio”, sussurra a
velha ao meu lado. “Um homem está debaixo do vagão”. Penso que na cidade a vida tem pressa
para acabar.
Glaucoma
Uma mulher vigorosa senta-se ao meu lado e dispara: “é o glaucoma. Perdi a vista em menos de 48 horas”. Afundei no banco e resisti a uma comichão cruel no olho esquerdo.
Sincronia
O tempo e o espaço se abrem e revelam um mundo de sonhos nas tramas intestinas do Metrô paulistano. “Autodeterminação da própria imagem”, diz alguém logo atrás. O jovem lança o braço sobre nós e se agarra à alça de segurança. Parece querer expor garbosamente a sua tatuagem – um velho relógio com algarismos romanos. As setas projetam-se erga omnes, os números vazados num código vetusto e venerável. O relógio é um monumento arcaico. O que nos revela o jovem? Sonhos, medos, angústias inscritos na cútis. Memento mori! O tatoo é uma nótula pessoal, singular, um signo inscrito num vade mecum feito para iletrados. Como a esfragística notarial, o assinar em cruz. Penso que sou tabelião e rio. A vida é só a lavra infinita inscrita num livro inefável. Neste intervalo calham os ponteiros do relógio, tão certos como num átimo de eternidade.
Olhares cruzados
Vou ao trabalho de metrô. Sexagenário, minhas pernas logo se cansam. Ao meu lado, jovens vigorosos se acomodam em assentos preferenciais. Aprecio suas tatuagens aplicadas aos borrões; escuto involuntariamente sua prosa frouxa. Nossos olhares cruzam como as composições que não param na estação. O trem avança e eu penso: “somos todos idiotas”.
O amor e a flor
Ler Santo Agostinho no metrô é uma aventura interior. Segundo o Bispo de Hipona, as flores possuem a carência essencial de que os homens as contemplem amorosamente. O amor-tropismo nos restitui, homens modernos, a uma essencialidade cindida. Estamos condenados ao amor e à dor.
Tatuagens
Algumas são tribais; outras meras garatujas. Outras são como que paisagens urbanas, portadas por seres que erram nas reentrâncias do túnel ventoso. Dedico-me a ler e a interpretar cada uma. São histórias fantásticas - o crescente e a mão de Fátima, estrelas solitárias, serpentes espectrais, cavalos e unicórnios, dragões, índio apache, folha de cannabis, borrões esfumados
Pecunia non olet
Uma senhora passa apressurada e deixa cair uma moeda que rodopia, dança e descansa no piso frio. Não resisto: paro, agacho-me, e a recolho. A senhora manda um sinal aborrecido, fazendo ver que não se importa nem com a moeda nem com a mesura. Segue apressada sabe-se lá para onde. Fico eu com a moeda na palma da mão, lembrando-me das moedas romanas. Este bem fungível representa uma fração do trabalho. Só por essa razão eu a guardo no bolso, respeitosamente.
As coisas simplesmente existem
“À noite, a razão dorme e as coisas simplesmente existem (...). O homem reúne os seus pedaços e volta a ser árvore calma”, leio Saint-Exupéry em “Piloto de Guerra”. Que homens foram aqueles no final da II Grande Guerra? Que nos falam San-Ex e Dutertre nesta manhã cinzenta e fria? São ecos de fantasmas que nos sussurram palavras incompreensíveis, um canto triste e solitário que ressoa nas entranhas. Quem nos ouve, quem nos ouvirá? — parecem clamar em lamento. Penso que logo a razão descansa e a árvore, calma e serena, se revela majestosa à noite misteriosa. Quem se importa com as coisas que simplesmente existem?
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