Era uma casa ampla, mas sombria. Tinha algo das construções antroposóficas, endurecida pelo concreto armado, aparente, quase brutalista. Havia movimentos na casa. Entes esquivos, de algum modo sensíveis.
Não os temia. Parei diante da parede fria e tive o impulso de atravessá-la. Sabia que podia. Atravessei. Vi-me do outro lado, parado, fitando o muro. Levitava. Não havia gravidade.
Então surgiu da parede espessa: um jovem de peito nu, tez marmórea, semblante sereno. Parecia desprender-se da matéria. Arrojava-se no éter. No meio de sua fronte, cravada, desabrochava uma pequena flor carmim. "Rubi sagrado", uma voz sussurrou aos meus ouvidos.
A casa era ampla,
fria, vazia.
Nas salas se ouvia
o ar vibrar nas cortinas.
Entes esquivos,
discretos, sensíveis,
espreitam o silêncio,
nos átrios da sala vazia.
Não os vejo,
mas não os temo.
Toco a parede
grave, sereno.
Sabia atravessar.
– Atravessei.
Do outro lado,
sem peso
contemplei.
Não há gravidade,
só o silêncio da tarde.
Do muro branco e informe
desponta seu rosto de mármore.
Lindo e forte,
flor carmim na fronte.
Num jarro de barro
brota água na fonte.
Sonho que sonho
de novo acordado.
Na fronte do anjo
a flor carmim:
rubi talhado.
fina flor carmim:
Rubi sagrado.
Ouça: Rubi Sagrado
Acesso: https://youtu.be/72Ax06jNKlQ
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