Acordei às 4h. da manhã com um gosto amargo na boca. "Deve ser o fígado", pensei. Fiquei ruminando ideias imperfeitas.
Você sabe que falo comigo mesmo. Às vezes discutimos em silêncio enquanto caminho pelas ruas da cidade. Dou uma risadinha e penso que isso tudo é uma grande besteira, discutir em silêncio... que idiota!
No fundo eu sabia que o amargor se devia a outra coisa. Dormi mal, acordei mal. "Era necessário tudo isso?" - desafia o velho Ermitânio enquanto lança aquele olhar severo no espelho. Agora mesmo cofia a barba e as cãs. "O que sabe de minhas necessidades essenciais, Velho?" - disse-lhe irritado. Silêncio. "Preciso cortar o cabelo", tergiversei e voltei para a cama. Ele que fique a sós, censurando a si mesmo!
Pensei no controle remoto da TV ao lado, ao alcance da mão. É um botão de pânico. Quando tudo parece acinzentar-se abro a janela de plasma e me deixo inundar de cores e de palração sem fim. Mas vou acordar a mulher, largo o controle e tomo um gole d´água. Depois viro, reviro. Volto, revolto, o coração se acelera. "Era necessário tudo isso?".
Levanto-me. Experimento a dureza do mundo, finco os dois pés no chão. "Friaca do cão!". Tomo impulso e saio para o vestíbulo.
O Velho está ao meu lado. Não sente frio, não sente nada. Nada. E no entanto, o amargor na boca, o pulso acelerado. "À distância tudo parece pequeno, não é mesmo?" - diz. O velho arma uma cilada, eu sei. Sempre sei. Suspendo a respiração. "É a insignificância pregando uma peça. Não se iluda. A distância não diminui nem magnifica nada...". Maldito espelho. A casa é uma cidade perdida e em vez de tesouros encontro espelhos.
Vejo de soslaio o Velho, à espreita.
quinta-feira, outubro 25, 2018
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