terça-feira, setembro 12, 2017

A nau amarela


Há coisas que v. não sabe. Nem deve saber. Apenas deve confiar que o seu pai, a cada novo dia, se levanta da cama e encara a vida como quem arranca em mar aberto com uma simples canoa.

O que me leva a esta aventura, dia após dia?

Esperança. E no fundo desta esperança a fé – fé na vida, nos homens, na família, fé em você e em todos nós que vivemos aqui nesta casinha amarela de amor.

Você sabe que somente eu, e mais ninguém, deve governar o timão desta nau e arrostando o imenso mar que é a vida.

Há dias que o mar é tranquilo. Suas ondas são suaves e acolhedoras. Navego com alegria solar. Outros dias as ondas se encapelam, a espuma tinge o espelho d´água e um verde profundo se espessa e revela um caldo insondável e temível, no fundo do qual vislumbro os meus fantasmas, encaro os meus medos.

Sigo navegando, contudo. Galgando, uma a uma, as vagas imensas que se formam como paredes e abalam o corpo desta nau sensível e frágil. E sigo navegando.

Ontem foi um dia proceloso. O mar se agitou em ondas gigantescas, o céu se tornou uma densa camada plúmbea e eu perdi momentaneamente o rumo. Retornar ao porto foi muito, muito difícil.

Trouxe no corpo a memória da tempestade. Na boca, o gosto da batalha. No andar hesitante o cansaço da peleja. Foi uma pugna difícil, mas tão difícil que só encontrei remédio e conforto na certeza inabalável de que esta é uma batalha que se trava consigo mesmo. Uma guerra contra o medo interior, contra as incertezas da vida.

Mas um guerreiro não teme o próprio medo! 

Sei que talvez tenha tangido cordas ocultas e suscitado em seu coraçãozinho um sentimento de adversidade e afastamento.

Você é minha vermelhinha linda e o encanto da minha vida. Não deveria ter permitido que se recolhesse sem uma reconciliação.

Lembre-se que nossas alianças são eternas. Formaram-se antes mesmo de chegarmos ao útero de nossas mães e avançássemos na marcha sobre esta Terra dos Homens. E nada, nada haverá de destruir o amor eterno que nos une.

Te amo, filha. Perdoa a aspereza de seu pai.

São Paulo, 12/9/2017.
Papi