quarta-feira, agosto 04, 1999

Padre Adolfo Romano Codini

Dia 4/8/99, dia do padre.

A saída de Franca foi tumultuada. O corre-corre típico de afazeres de última hora. A mala, os telefonemas inadiáveis, o azáfama de decisões derradeiras. Enfim, desgaste desnecessário. Ou não.

Mas, o dia prometia. Logo após exercitar o ritual diário do pé direito no chão, de experimentar a firmeza do cosmo pela certeza do Cascolac frio, veio a primeira grande descoberta.

Ainda embaciado pelas brumas do símbolo e do sonho, dei-me de cara com o livro árabe Histórias da tradição Sufi, disposto distraidamente sobre a cômoda.

Tesouro presenteado pelas mãos abençoadas de Petelinkar. Logo deixei-me levar pela história de Zadig.

Inesperadamente, de maneira definitiva e fugaz, fui atingido por um raio!

Transfigurada a certeza em plena incerteza, a clareza pelo seu contraste, pude então percorrer cada linha, experimentar cada sentido, recuperando a posse de um código há muito perdido.

O livro iluminava velhos caminhos da alma. O escrito verberava em cada canto de mim! Por mais estranho que possa parecer, aquele texto agora me examinava, sobranceiro, decifrava-me, deliciava-se do meu assombro. A sua personalidade se manifestava no vivo de sua voz. O mapa de meu coração estava decifrado. Tudo então se fez compreensão, absoluta e perfeita. Tão perfeita, que poderia jurar que a alcançaria com as próprias mãos.

Ou com o coração. Chorei.

Como resposta à minha angústia, a pequena história do ermitão desarmou a dura cerviz. A indignação que assomava, a resistência que se articulava contra as duras injustiças, incompreensíveis e inaceitáveis desmandos, tudo foi sendo superado por uma compreensão superior e ativa, por paradoxal, na aceitação dos fatos. Mas, estava agora convencido de que esses fatos não são mais do que meras representações. Uma em várias. Várias em Milhões. Mas há uma certa tessitura, urdida nos misteriosos caminhos do espírito, que aponta numa justa direção: o vento sopra onde quer, e ouves a sua voz. É preciso ter paciência e humildade. Fico sempre agradecido por ser introduzido nos mistérios da compreensão.

Um sábio sacerdote, esse Petelinkar.

Foi o Padre homenageado nesse grande dia.

Cenóbio.

O claustro é apavorante. O silêncio emoldura a algaravia interior. Amplifica a desordem. Magnifica o vozerio desafinado dos pensamentos desencontrados. Caos.

5/8

Mas o silêncio nos coloca diante de uma premente necessidade: agir. Sim, agir. A vida contemplativa dos mosteiros é ação em harmonia. É concentrar-se para o equilíbrio. É o trabalho da transformação. Caminhadas solitárias na manhã fria e escura.

Os salmos se alternam nas vozes que buscam. O que buscam? Sei o que busco: sentido e harmonia. Disciplina e coragem. Despi-me diante do altar e a minha busca está em busca de si mesma. Como buscar? Fixei-me em cada palavra, haurindo todo o sentido que pudesse oferecer, em diligente busca de cada idéia que pudesse desentranhar. Mas, não há respostas. Só o palavrório, palavras despidas de ânimo. Mas há sua contraparte: o silêncio. E a música maviosa das palavras em louvor. O som, o som que ecoa pelas reentrâncias do templo, no tempo. O som. Reverbera um longínquo sentido, verbo da alma, sua linguagem ancestral é ruínas da alma, clara, calma, suave, salmo. O verbo. Sua ação acústica faz vibrar cordas secretas, abrem-se as portas da cidadela fortificada.

Pela manhã, o cochilo. Havia algo de muito sério para resolver. Sei lá o quê! Cai num sono entrecortado de sustos e suspiros.

À tarde o sol lambe gostosa e preguiçosamente os bancos do jardim. Como o tempo parece correr lentamente nas tardes de Claraval!

É noite. Desci as escadas na escuridão. Sinto o pulso alterado. O medo é tão antigo quanto o luar.

10/8 – Dei famulus.

Meu confrade. Suas mãos instruídas guiam-me, seguras, na descoberta de formas essenciais entranhadas na madeira bruta. Minha idéia tosca, meus parvos projetos, esbarram nas formas que se fazem concretas, pouco a pouco, inesperadamente. A madeira se transforma, de dura indeterminação, potência essencial, descerram-se belas formas: compreendo, então, que todas as obras louvam e encaminham-se a Deus – quod omnia intendunt assimilari Deo. Toda a matéria está impregnada do Altíssimo. A lavra na madeira bruta é um ato de amor e louvor. E de sabedoria. Revelam, nos detalhes, os mistérios da criação.

Sinergia.

Senti o coração do torno. Tomei-lhe o pulso de energia abundante e generosa. Auscultei seus intestinos. Vi o seu centro tranqüilo e poderoso, onde tudo é repouso e movimento. E soube que já sabe de mim.

Notarius – sub brevitate scribere.

O que se sabe de Santo Ambrósio, além das precárias fontes gregas, chegou até nós pelo zelo de Santo Agostinho, que desde a África, encarregou Paulino, antigo notário da Igreja de Milão, de redigir-lhe a biografia. Mais ainda. Segundo nos informa Schuster, faziam parte da vida quase conventual dos clérigos que cercavam S. Gregório, dois notários: Emiliano e Patério, todos notáveis, distintos pela cultura e pela excelência de virtude, sendo que este último publicou, sancionado pelo escrupuloso rigor crítico do Papa, uma antologia de comentários bíblicos de Gregório.

Tudo isso me remete, novamente, à madeira informe, grávida de cálices e malgas. Tanger a Verdade e dela haurir os atributos de fidelidade, exatidão, constância, firmeza, e plasmar a afirmação fidedigna: testemunho de fatos e atos da vida. Eis o meu ofício! Ars notarie.

11/8/99

Isaías e a brasa do altar

"Vê, isto tocou os teus lábios,
a tua iniqüidade está removida,
o teu pecado está perdoado". (Is. 6)

Tarde única. Borrada de sanguinolência solar. Outeiros alaranjados de Claraval, cimos tingidos de matizes de fucsinas. As colinas ardendo em bandeiras rosáceas e carmim. Os elementos são testemunhas do meu arrebatamento.

Não pude deixar de pensar em entropia. Nem no seu reverso complementar: o enguiço cósmico emoldurou uma nova aliança. A absolvição de meus pecados.

Dei gratia!

quarta-feira, abril 15, 1998

A arte popular em pessoa

Não é muito fácil compreender os complexos processos da produção cultural em tempos bicudos de globalização. A indústria cultural provê o mercado com infinitas variações sobre o mesmo tema: há um pouco de tudo para todos na repartição generosa e cada vez mais qualificada desse Mercado Transcendente - esse mesmo ser mítico que decreta e sanciona o gosto para o desgosto dos descontentes. Neste fim de século, poderíamos muito bem parafrasear o filósofo: “consumo, logo existo”! Pois bem, consumimos, a que será que se destina?

Discutíamos intensamente, no CHOPP SHOW DA AEC, o tema candente da indústria cultural. Estamos sempre a reboque do mercado, que nos impõe, goela abaixo, um padrão cultural cada vez mais proteiforme? Estaria o todo-poderoso pautando nossos costumes, sonhando nossos sonhos, desejando nossos desejos? Ou simplesmente estaríamos diante de um fenômeno de eficiente recuperação da formidável diversidade cultural,  diligentemente  informada e realimentada pelos produtores da indústria?

Essas dúvidas e especulações sempre nos assaltam quando nos vemos confrontados com o volumoso output da indústria cultural. Consumimos Axé Music, Rock’n’Roll e pagode, nos perguntando se consumimos porque apreciamos, ou simplesmente apreciamos porque consumimos. Nesse complexo processo de produção, o que vem antes? Nós ou “eles”?

O show do Pessoa nos revela a mesma questão, renova os termos do mesmíssimo problema. Apresentado com despojamento e sensibilidade, seu trabalho nos remete à idéia de que a arte popular passa mesmo por caminhos que nem sempre nos são nítidos, acostumados que estamos ao consumo inocente dos produtos culturais ou confortados pelas referências cristalizadas do bom gosto sancionado. Mas o artista está ali, em pessoa, aborrecendo a nitidez das certezas, incomodando o bom tom dos escolados, insinuando com sua música uma nova percepção, uma nova suavidade.

Essa constatação nos vem da memorável terça-feira do último carnaval, passado em Claraval. A cena é singular: bar do mineiro assaltado por uma trupe de artistas mambembes, a bateria aninhada na brasília voadora do tiete, o clarinete generosamente azeitado pelo Mazola do bodegueiro. Lá pelas tantas, quando o legítimo seria pensar numa raivosa execução de marchinhas momescas, a sensibilidade do escriba e dos rurícolas é suscitada pela maviosa melodia de Ravel. Mas, você perguntaria, Ravel & Cachaça, bateria, jazz,, clarinete e violão? Em Claraval? No carnaval?

Pois é. Os olhos atentos dos circunstantes logo perceberam o que realmente importa: entre nós não há diferenças. Somos um justo acorde. Enfim, somos todos brasileiros!

Seremos capazes de ouvir o Pessoa em pessoa? Ainda seremos capazes de perceber o que desvela e resgata da cultura popular?

Pequeno artigo escrito em 1998 no Chopp Show da AEC, em Franca, SP. Na roda de amigos, Ana, Fernando Dias Andrade, Renata Braz de Farias a respeito do clarinetista Pessoa.

sexta-feira, março 27, 1998

Justiça, Amor & Arte

O lema que o papai e a mamãe adotaram desde o dia em que se conheceram – justiça, amor e arte – esperaria ainda muito tempo até que o seu verdadeiro sentido se revelasse plenamente pelo advento dos fatos guardados no futuro.

Na altura em que nos conhecemos, sabíamos que os grandes valores da vida, em seus aspectos mais importantes, se realizam com Justiça, com Amor e com Arte. Queríamos e buscamos um amor verdadeiro, que se estabelecesse com base na Justiça e que se revelasse, sempre, como uma verdadeira obra de arte.

Assim foi e tem sido a nossa vida, querida Helena.

Buscamos realizar o nosso Amor em bases de Justiça - com trabalho, respeito, dedicação. E com beleza e arte.

O mais curioso, meu amor, é que os nossos três filhos expressam, de certa maneira, essas dimensões da natureza humana. Com um acento mais ou menos característico, todos vocês encarnaram esses valores - Justiça, Amor e Arte.

Pequena Helena: não deixe nunca de voltar-se ao lema familiar. Que esses valores possam se constituir numa firme referência para toda a sua vida.

sexta-feira, fevereiro 27, 1998

Todos os caminhos levam ao Amor


Às vezes nos perguntamos como tudo acontece como acontece quando acontece. Tudo parece ocorrer ao seu modo e ao seu tempo.
E se fizéssemos diferente? Ou antes? Ou num lapso pequeno de tempo depois?

Um segundo de hesitação e tudo se desfaria como um futuro para sempre esquecido...

Não estaria aqui escrevendo sobre você, pequena Helena.

A foto que v. vê ao lado é significativa e expressa um pouco do sentimento que temos – eu e a mamãe – sobre o nosso encontro e os desafios que chegariam até nós do futuro.

O registro foi feito pela Tia Renata Braz de Faria, na Serra da Canastra, num dia qualquer de 1998.

Naquele exato instante, parecia se desenhar um lindo futuro no qual v. se faria presente.

Hoje, visto em perspectiva, vejo que o meu passado estava já grávido deste lindo presente da vida: você!

Às vezes me flagro pensando que, afinal, descontados os erros humanos, as nossas vidas são movimentos de uma grande sinfonia: acordes perfeitos, justa harmonia, profundo silêncio, tudo no tempo certo. Nossos caminhos se cruzam no exato instante em que as notas se combinam em originais desenhos, tessituras, em tramas complexas, misteriosas, insondáveis.

Vim ter a Franca em busca de mim mesmo. Era então um homem vocacionado em busca de sua plena realização – não só profissional, mas afetiva e emocionalmente, como perceberia muito tempo depois.

Não me tendo desviado um só milímetro do exercício de meu nobre ofício, acabei por realizar uma obra que haveria de se concretizar e irradiar em todas as outras dimensões pessoais.

Aportei nesta cidade em busca de Justiça, Amor e Arte. Ao cabo de sete anos, cumprida essa importante etapa profissional de minha vida, volto a São Paulo completamente transformado. Trazia comigo a certeza de um grande amor, revelado em um sem-número de sinais maravilhosos, confirmado pelas estrelas e pelos elementos.

Meu coração já se achava preparado para a sua vinda, pequena Helena.

A etapa francana se encerrou, os portais se desfizeram ao cabo de uma impressionante sucessão de coincidências cuja razão, sentido e significado se revelariam nítidos ao meu coração.

Outras portas se abriram e no momento certo realizamos o exato acorde. Despertamos a pequena Helena de seu berço de estrelas.

A pequena sementinha confirmava que os caminhos do coração nos conduzem, sempre, ao tempo certo, ao verdadeiro Amor.

Querida Helena. Você é o fruto de um grande Amor.

quinta-feira, fevereiro 26, 1998

Carta a meu pai


De: íris Jacomino
Para: Sérgio Jacomino
Data: Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 1998 22:47
Assunto: Fase Barroca

Oi pai,

Quanto tempo não nos falamos. Agora mesmo, escutando Hendrix lembrei-me de vc (por que será, né?). Saudades. Como estão as coisas aí? Em SP tudo está bem. A escola senti que será puxada, mas enfim, consigo acompanha-la. Vc não sabe, estou começando a me interessar por desenhos, não consigo mais parar de desenhar, todos falam que ando com a cabeça nas nuvens, mas acho que é uma fase. Eu não sei, fiquei muito chateada por não ter entrado no Teatro, mas as possibilidades não favoreceram. Aquele sentimento confuso e angustiante me perturba, mas não é algo anormal, talvez seja "carne que tá crescendo". O sentimento exato é de impotência, não tem nada mais triste em não saber o que se quer na vida, ficar a mercê de Deus. Sinceramente não acredito em destinos, sabe. O futuro se faz hoje, mas tem tanta coisa legal, tanta coisa que acho interessante, que gostaria de absorver.

Ando me interessando por filosofia, sociologia, feminismo, história, e por ai vai. Sabe aquela vontade tremenda de ler, se informar, de absorver conhecimentos. O único problema é falta de tempo, 24 horas não é o suficiente, conciliar tudo escola, desenhos, leituras não é fácil. É uma fase muito difícil. Ah, estou lendo agora Ensaios de Amor, Allan de Button, conhece? Outra escritora que me identifiquei bastante é a Fernanda Young, escreveu Vergonha dos pés, e Sombra das vossas asas. Vou comprar os dois

Entrei naquele programa de amigos virtuais, na uol, conheci muita gente legal. Bom é assim que se encontra minha vida atualmente, poderia chama-la de fase Barroca. Dualidade, razão e emoção, carpe diem, conflito espiritual, morbidez.  gosto pelo mórbido e raciocínios complexos, intrincados ... AAHHH!!!

A Brevidade dos gostos da vida
E a inconstância dos bens do mundo

Nasce o sol; e ñ dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas e alegria.

Porém, se acaba o sol, por que nascia?
Se é tão formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no sol, e na luz, falta a firmeza,
Na formosura não se de constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo, enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens, por natureza,
A firmeza somente na inconstância.
Gregório de Matos

Beijos pai

Iris Jacomino
irisgj@mandic.com.br

26/02/98

sexta-feira, setembro 12, 1997

Carta a Íris Jacomino

Querida Íris.

Estou aqui, sentado e quieto no meu gabinete, descansando os pés sobre a mesa de trabalho, depois de um dia extremamente agitado e tumultuado. Imagine a cena: o Sr. Registrador, de paletó e gravata, com os pés descalços sobre a mesa, cuidando de esmiuçar diligentemente a caixinha de charutos que acolhe lembranças, caracóis, pedrinhas da Serra da Canastra, mapas, estrelas, ventos e cartas antigas, muitas cartas e fotos.

O agito da semana não foi suficiente para eliminar você da minha caixinha de atenções. Nunca é. Ultimamente a tenho resgatado da minha caixinha de charutos. Quantos detalhes encontro, espalhados de forma desorganizada. São nossas fotos, CDs, cartas e uma saudade inenarrável! A saudade eu a tenho ali, cuidadosamente assentada num dos cantos da caixinha. Vez por outra se manifesta e a sua voz é como uma melodia de uma flauta antiga, que não sei se me acalma ou entristece.

Ainda agora, repassando os olhos sobre todas essas coisas (que permanecem “aqui do meu ladinho”, como um claro sinal do vínculo que nos une) ainda agora, como dizia, fiquei extremamente emocionado com as palavras ternas e amorosas que me dedicou no encarte do CD de Alanis Morissette: “fico feliz por ter conhecido meu pai”.

O que mais pode querer um pai? O que pode neste mundo ultrapassar o amor expresso em palavras tão ternas?

Ainda recentemente, alguém me lembrou que há poucas coisas na vida, pouquíssimas mesmo, que valem a pena tanto quanto o amor das pessoas que amamos. Um gesto delicado, uma palavra suave, uma intenção – quanto valor espiritual agregado! Às vezes fico amarfanhado e azafamado por tantas atribulações, turbações, aflições no dia a dia e simplesmente me esqueço que sou feliz! Sou feliz porque te amo. Sou feliz porque me ama. Sou feliz porque tenho pessoas sinceras e delicadas ao meu lado - meus amigos, meus irmãos. É isto o que preciso lhe dizer, minha querida filha – e o digo com todas as letras: eu te amo, Íris. E muito!

Não sei se por causa da idade, ou mesmo porque tenha crescido um pouquinho mais espiritualmente, mas, o fato é que a cada dia que passa, fortaleço em mim a convicção de que as pessoas que amamos devem saber, por gestos e por palavras, o quanto são importantes e necessárias para nós. Devemos alardear o nosso amor, comunicar a nossa amizade, multiplicar a nossa inspiração divina de vida.

Queria que soubesse que os meus melhores dias passei ao seu lado. Você é minha estrela preciosa, meu justo diamante, chuva e sol, a palavra certa, a certeza de ser.

Sou o seu pai e me orgulho muito de sê-lo. Conte comigo, sempre.

Franca, 12 de setembro de 1997.

Sérgio Jacomino.

íris Jacomino

Querida Íris:

Estou aqui, sentado e quieto no meu gabinete, descansando os pés sobre a mesa de trabalho, depois de um dia extremamente agitado e tumultuado. Imagine a cena: o Sr. Registrador, de paletó e gravata, com os pés descalços sobre a mesa, cuidando de esmiuçar diligentemente a caixinha de charutos onde se acham, inesperadamente, lembranças, caracóis, pedrinhas da Serra da Canastra, mapas, estrelas, ventos e cartas antigas, muitas cartas e fotos!

O agito da semana não foi suficiente, contudo, para eliminar você do horizonte de minhas atenções. Nunca é. Ultimamente tenho resgatado você da minha caixinha de charutos! Quantos detalhes eu encontro ali, espalhados de forma desorganizada. São nossas fotos, CDs., cartas e uma saudade inenarrável! A saudade eu a tenho ali, cuidadosamente assentada num dos cantos da caixinha. Vez por outra se manifesta e a sua voz é como uma melodia de uma flauta antiga, que não sei se me acalma ou me entristece.

Ainda agora, repassando os olhos sobre todas essas coisas (que permanecem “aqui do meu ladinho”, como um claro sinal do vínculo que nos une) ainda agora, como dizia, fiquei extremamente emocionado com as palavras ternas, amorosas, carinhosas que me dedicou no encarte do CD de Alanis Morissette.

“Fico feliz por ter conhecido o meu PAI.”!

O que mais pode querer um pai? O que pode neste mundo ultrapassar o amor expresso em palavras tão ternas?

Ainda recentemente, alguém me lembrou que há poucas coisas na vida, pouquíssimas mesmo, que valem a pena tanto quanto o carinho das pessoas que amamos. Um gesto delicado, uma palavra, uma intenção – quanto valor espiritual agregado! Às vezes fico amarfanhado e azafamado por tantas atribulações, turbações, aflições no dia a dia e simplesmente me esqueço que sou feliz! Sou feliz porque te amo. Sou feliz porque me ama. Sou feliz porque tenho pessoas sinceras e delicadas ao meu lado – meus amigos, meus irmãos. É isto o que preciso lhe dizer, minha querida – e o digo com todas as letras: EU TE AMO! Íris. E muito.

Não sei se por causa da idade, ou mesmo porque tenha crescido um pouquinho mais espiritualidade, mas o fato é que a cada dia que passa, fortaleço em mim a convicção de que as pessoas que amamos devem saber, por gestos e palavras, o quanto são importantes e necessárias para nós. Devemos alardear o nosso amor, comunicar a nossa amizade, multiplicar a nossa inspiração divina de vida.

Queria que soubesse que os meus melhores dias passei ao seu lado. Você é minha estrela preciosa, meu justo diamante, chuva e sol, a palavra certa, a certeza de ser.

Sou o seu pai e me orgulho muito de sê-lo. Conte comigo, sempre.

Com amor,

SÉRGIO JACOMINO
Franca, 12/9/97

domingo, julho 06, 1997

NO-SAY-QUE-S'ES

Pesam-lhe as fundas raízes?

Que história é essa que se perdeu na noite dos tempos? Uma velha nova amiga, nos encontramos agora desde a ancestralidade.

Ontem foi o terror das arcadas consteladas de gárgulas, demônios e radiais entretecidos de um signo perene. Ainda me recordo do resplendor aterrador das catedrais góticas, das gentes empoeiradas e das videiras.

Que viagem, cara, que viagem!

Hoje buscamos nossos retratos na internet, naquele exato sítio. Locus situ, diríamos.

O gótico tão improvável quanto Lucy in the Sky with Diamonds!

Então só nos resta fazer história. Vamos fazer história. E nos lançamos num indecifrado anelo de resgate e depuração que nos faz perturbadoramente conhecidos, cúmplices, anjos peregrinos, almas parelhas. Ainda a alquimia.

Limbus. Mysterium magnum.

quarta-feira, março 12, 1997

Jam Galáxias

É o vento que se insinua pelas frestas das janelas, são os sonhos que esboroam o frágil sentido de minha vida, são os sobressaltos, os sustos, o transir-me pelo inesperado, que se anuncia inominado.

Estamos já no domínio daquelas coisas que não têm nome. As minhas orações são como tocha tímida diante dos portais majestosos, e quando ilumina, bruxuleante, descerra mistérios, signos indecifrados, tem o condão de operar uma transubstanciação alquímica que altera fundamente a natureza de todas as coisas, principalmente daquelas que me são familiares.

Tudo agora é certeza e dúvida, pusilanimidade e destemor, claro e turvo, suave e tosco.

Na primeira noite, estive em um terreno acidentado, mal postas as barracas e as precárias cabanas, eram todos japoneses que afoitamente disputavam sabe-se lá o quê. Estive com a Jam nesse cenário, e estávamos resfolegantes, excitados e principalmente concertados numa solidariedade e cumplicidade que eram a perfeita expressão do nosso amor, algo assim como a restauração do melhor sentido que imperava nossas vidas. Mas, havia mais do que isso no sonho, havia a certeza dormida, que trazia na algibeira, inconfessa, de que já não me era possível atravessar o Grande Hades.

Na segunda noite preparei-me para a jornada. Orei pela saúde e alegria, minhas e da Jam, suspeitando que o noite seria de viagens, vez de lançar-me novamente às ondas perturbadoras do Mar.

Antes de acostar-me, message in a bottle, lançada na internet:

FRANCA - AEC Chic Chopp

Zanzando pela city,
jantar na balbúrdia,
o rei do gado imperando sobre o frango à passarinho...
e a cerveja:
titties'n beer

Olhares furtivos flagram
os modelitos que se insinuam assim,
abolerados!
(Sexualidade brejeira,
olhares-mísseis),

Observo o encanto suburbano dos
aeroportos, paineiras, dermínios,
das vilas tião & leporace.

O desejo fabril das operárias:
sexualidade febril de mulheres faber
tesão maquinado... fulgurações,
tontas reminicências da chuva:
rain dog

SÃO BERNARDO

São Bernardo é minha república,
minha eterna terra-à-vista:
milenes multifárias,
na chuva em metalurgia.
Carona no tesão de Lula, ABC e Valencise.

A terra amarrotou-se em desejos,
em Janes no outono,
Lennon, Ella & Rolling Stones:
send me a letter Negrita,
send me a letter!

Margaridas brotam sorrateiras no MP,
cecílias (que são Lizt & Simply Red)
Mastroiani, (seus olhos negros)
e o vento,
sempre o vento,
sempre o vento!

Oh minha rainha de Aeolia,
que impera solitária
como um cristal na chuva!

Nem me importam as portas
nem as janelas
nem os trincos,
pois que me abri
como um guarda chuva às avessas
e suporto
a saudade das
estrelas!

TELÉSFORO

Tudo é muito claro prá mim, baby... 

Saiba que a mim também incomodam: o entusiasmo, a intimidade, a clandestinidade.

O entusiasmo porque é a voz de Deus — e sempre resistimos, anjos caídos, ao sopro do vento que nos orienta e conduz - "o vento sopra onde quer, e ouves a sua voz..." (Jo 3:8) - e, afinal, não sabemos qual é o caminho dos ventos (Ec. 11:4).

A intimidade. A nós dois aborrece. Mas por motivos opostos: A você, porque lhe parece que a minha voz reverbera velhas cantigas, tange alaúdes e cítaras. A intimidade que você denuncia (e renuncia) para mim tem o nome de História. Uma história plural, contada e recontada milhões de vezes, amalgamada no íntimo de cada célula, explodindo no interior de cada átomo: diz com galáxias, pérgulas e vaga-lumes ao pôr-do-sol. Mas diz também com John Lennon, ainda com Warat, com Oswald, com estrelas cadentes sobre os céus em metalurgia. Diz com o que é — sempre foi, sempre será! — after all it is written in the stars...E por tudo isso me incomoda também. Como uma "dor elegante".

Já a clandestinidade é botão em flor. Encerra os encantos de um fruto maduro. É clandestinidade de jacarandás no inverno. Minha querida, tudo a seu tempo se mostra exato como uma pequena flor de jacarandá.

E depois, não há traição maior do que aquela cometida contra o próprio coração.

Não há direitos em amor, como assegura Arnaut Daniel. Não há, meu amor! Descansa.

Apresentei-me aos besouros, às aranhas e aos delicados fios que tecem, entretecem, insuperáveis vezes, ao ocaso... Às rochas, aos pequenos fetos, riachos, prímulas e ao lilás ardendo sob os sóis de minhas retinas... Ao vinho e sua espiritualização, flamejante ÍRIS, metáforas e o som de JAMES BROWN.

Ah! Como me dei conta de você, minha querida... como te reconheci nas galáxias — você que é tão especial na valorização desses detalhes importantes: afinal, o que pode ser mais importante para dilucidar nossas existências do que vaga-lumes ao pôr-do-sol?

Fica de nós dois uma espécie de conhecimento fundamental.

É como se esse conhecimento essencial, desentranhado agora pela dor, tomasse a forma de um mito, de um poderoso arquétipo, como se esse conhecimento ultrapassasse até mesmo os limites da minha própria existência e se consolidasse numa vasta e infinita teia de relações essenciais.

Sinto que atingimos, enfim, a Humanidade!

Wipping Post

Girassóis e vagalumes

"(...) Eu a preferi a cetros e tronos e avaliei a riqueza como um nada ao lado da sabedoria. Não comparei a ela a pedra preciosa, porque todo ouro ao lado dela é apenas um pouco de areia e porque a prata diante dela será tida como lama. Eu a amei mais do que a saúde e a beleza e gozei dela mais do que da claridade do sol, porque a claridade que dela emana jamais se extingue (...) Há nela, com efeito, um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, puro, claro, inofensivo, inclinado ao bem, agudo, livre, benéfico, benévolo, estável, seguro, livre de inquietação, que pode tudo, que cuida de tudo os inteligentes, os puros, os mais sutis..."( Sabedoria 6.7)

Nem Narcisos,
muito menos as ansiosas rosas...
Apenas girassóis & vagalumes
E não sabemos ao certo o que nos une.
Mas temos a certeza
de que não é
vento.

Meu amigo,

Visitei sua galáxia e reconheci em cada frase sua dor e seu amor.

Brilhante como as estrelas, essa iniciativa tão bela de fazer poesia da poeira do passado.

Você tem o dom da transformação. (12 Mar 1997 18:30:47 -0300 - Adriana Gianvecchio)

De volta para as estrelas

Atentamente sorvi seu trabalho ou quem sabe, prazer. Como um vento vindo das galaxias, aponta sua vida, sua dor, seu passado e a inquietude de seu futuro.

Estrelas,
pontos distantes num emaranhado
celestial
a revelar que o amigo tem
liberdade e intimidade
com os astros e, também, com as
estrelas.
Não apenas aquelas ali do ponto distante mas também aquelas que assim se chamam cá na terra. No silêncio, no lamento, a alegria de um momento, de um período, de uma vida. A lembrança do som, do aroma da presença ainda que fugidia e distante. (13 Mar 1997 09:19:07 -0700 Elcio Trujillo)

Galáxias

It was written in the stars, você ia ter tudo a ver com "escrituração". A sua fórmula encanta e despista: Viver poeticamente ou poetizar a vida? Se não é uma rima parece uma solução, como talvez preferisse aquele grande poeta.

Porque não há poesia maior do que a vida,
só a recriação dela em poemas
(poetizar a vida?)
pode proporcionar tão essencial espelho
para vivermos poeticamente?

Então é isso, descobri a sua fórmula: você vive poeticamente e poetiza a a vida com um `a vontade de causar a doce inveja dos espíritos menos agraciados. (Que coisa: São Bernardo já tem o seu "Samba" e nem suspeita disso!) (Sat, 15 Mar 1997 18:53:24 -0300, Fátima Rodrigo

Poeiras: Não eram cacos de dentes no chão, eram reflexos das poeiras do céu...saudades...saudades...saudades!!!

Não consegui ler, as palavras são tantas e eu tão dividido, fragmentado. Sempre à cata de estrelas, vi o resto, vi os mortos, vi a vida fugindo desesperada; distante três dias de qualquer esperança que pudesse me resgatar e furei os olhos e quebrei todos os dedos e movimentos e dentes e desejos. Não eram cacos de dentes no chão, eram reflexos das poeiras do céu... saudades... saudades... saudades!!!

Depois fui acordando entre tantas bocas e beijos lascivos, olhos de vidro e luzes refletidas (nas vitrines, nas poças d`agua, nos olhos da saudade) e assim cheguei mais distante de qualquer lugar que  poderia ter imaginado chegar e, talvez por isso, me vi livre de tudo o que poderia ter sido por
mim mesmo antes pensado: O Jogo da Amarelinha, as saudades, os eternos significados, eu sou eu atravessando a rua comigo, contigo, repleto de saudades e sabendo que talvez nunca mais aconteça o encontro, quando meus olhos olharem os teus, ficaremos como dois idiotas tentando colocar (entre nós) um monumental passado que por isso mesmo não significa nada, ou melhor: somos nós! Eu sou o que melhor recebi de ti e de você mesmo não restou nada apenas em mim esta busca equivocada pela poesia, pela vida: plena, inteira, absoluta: muito mais que as palavras... Como no próximo encontro será possível agenciar os mesmos afetos e despir-nos de anos e anos de ausência que ficam tão grandes imensos como os prédios dos desenhos futuristas da MTV e os meus ficando brancos cabelos e o coração ainda sem temer ( quase desejando) o cataclisma cardíaco e as palavras vão
todas amontoando-se e eu desesperadamente em fuga de tudo o que já sei: o novo é sutil, o novo é febril, o novo é o meu desejo desesperado de estar vivo: mordendo as mãos para tentar algum sentido. (Waldir Arnaldo Martins)


Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá! Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu. Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada. E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela. São tolerantes com ela. O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes, Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem. Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros. A minha obra? A minha alma principal? A minha vida? Um caco. E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Fernando Pessoa (poesias de Álvaro de Campos)

Meu bom amigo Sérgio,

Somos todos seres em movimento,
na suave dança cósmica,
Podemos nos encontrar, de repente,
na dança da precisão do acaso.
E nos reconhecemos, apesar de "estranhos"
Que grande galáxia nós vivemos!!

Renata Braz de Faria (Sun, 27 Apr 1997 13:53:14 -0200.